um Seminário o texto abaixo é parte de um seminário sobre "A obra infantil de Clarice Lispector" apresentado em 07 de maio de 1992, na disciplina Literatura Infantil/Juvenil - Anos 40/60, da Faculdade de Letras USP. Apresentação da autora, confronto com o mercado livreiro, seu envolvimento com a literatura durante infância e juventude. Breve levantamento de características em seus livros para crianças: linguagem afetiva, personagens, situações narrativas. Por Fabiana Buzo, Neusa de Onofre e Peter O'Sagae. LARICE LISPECTOR NUNCA SE CONSIDEROU UMA LITERATA, pois "não vivia no meio dos livros, nem tão pouco das flores e das aves". Acreditava ser essencialmente uma pessoa intuitiva e instintiva: uma mulher que sofria as mesmas dores que o mundo. Aliás, foi por um desejo de tentar reformá-lo, que concluiu o curso de Direito... No entanto, não lia a si mesma como uma escritora participante, nem engajada em movimentos de qualquer espécie, embora toda a consciência crítica que tivesse: para apontar os abusos e a constante exploração que ela e a maioria de seus colegas eram vítimas... Dizia sempre ter uma vida corriqueira com seus filhos, sua casa, seus escritos. Dizia que não gostava ser interpretada, dividida em porções: com ela, tudo era uma coisa só. Editada em vários países - como Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos -, Clarice Lispector nunca viveu exclusivamente de sua literatura. Não que o público fosse desinteressado por suas obras. O motivo (corriqueiro, ordinário) era a utilização indevida de que sempre se beneficiavam as editoras - poucos são e foram os escritores que deram sorte de encontrar boas editoras pela frente e conseguiram viver de direitos autorais. "Os contratos prendem o escritor que, em geral, desconhece seus direitos. Eu mesma assinava cegamente os meus contratos. E não temos meios de controlar." A solução, para ela, seria a formação de um sindicato de escritores: "Lutar para que os escritores jovens tenham acesso às editoras sem que pareça um favor a publicação de seus livros." MENINA NASCEU EM TCHETCHELNIK, na Ucrânia, numa aldeia que nem existe no mapa. Era 10 de dezembro de 1925, Pedro e Marian deveriam ter ficado imensamente felizes com seu nascimento, embora precisassem fugir dos "progrooms", dos caçadores de judeus. Com dois meses de idade, a pequena Clarice aportava em terras brasileiras: Maceió, depois Recife - e ali viveu uma infância alegre, correndo como os sagitários, muitas quedas e aprendizagem. Aos sete anos aprendeu a ler e, então, a supresa: descobrir que os livros eram escritos por autores, que não brotavam do chão. E quis ser autora também, passando a escrever histórias ingênuas, que enviava para um jornal local. As melhores eram premiadas, mas esta menina jamais coisa alguma... Como escrever conto dava em nada, Clarice resolveu tentar o teatro e, aos nove anos, escreveu uma peça três atos. Que ninguém leu: ela guardou bem guardada numa estante. Confessaria mais tarde: "era uma história de amor." Não somente escrevia, lia. Lia o que podia, constantemente. Adorou Monteiro Lobato: As Reinações de Narizinho, o livro mais grosso do escritor, muito saboroso. Foi dificílimo para ela conseguir emprestado de uma livraria - então, lia uma página por dia, para que não terminasse logo... Aos nove anos, Clarice perdeu a mãe. Aos doze, mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a morar no bairro da Tijuca e lendo cada vez mais: Madame Delly (o romantismo cor-de-rosa a encantava demais!), Júlio Diniz, José de Alencar, Eça de Queirós, Dostoievsky (emocionante, embora não apreendesse toda a sua grandeza). Aos quinze anos, frequentando diariamente uma biblioteca de aluguel, lia ao máximo. Títulos bonitos a atraíam: O Lobo da Estepe, de Herman Hesse. Aos dezesseis, começou a trabalhar e já podia comprar seus próprios livros. UA LINGUAGEM LITERÁRIA trouxe para a Literatura um enriquecimento filosófico e uma originalidade surpreendentes - sempre-viva do dizer. Como poucos, Clarice Lispector pontuou a fugacidade, a pulsação do tempo, o desencontro amoroso, a solidão, a angústia, os animais. Uma busca incessante, muitas vezes através da melancolia, da dúvida, da dor, do isolamento. E uma atmosfera de religiosidade, a lógica interior, uma procura por Deus: "Não há nada no mundo que substitua a alegria de rezar." As personagens clariceanas estão sempre envoltas na aura misteriosa de seu próprio cotidiano e saltam reveladas à força de um desconhecimento interior. Necessidade de fuga e alienação de vida que se desfazem e se mesclam. São personagens prosaicas que, no curso da narrativa, sofrem um estremecimento que, há muito tempo, parecia planejado pelo Dedo Divino... e o discurso, como o próprio fluxo de pensamento, exigirá do leitor a recomposição da totalidade vivida pois é feito fragmentos: a ação externa é quase inteiramente abolida, em favor da profundidade do instante, no silêncio gritante. É assim que, em sua obra, tudo possa soar como se não tivesse uma voz definitiva, como se o texto ainda não estivesse pronto. Mas é somente a primeira impressão. O improviso de Lispector é muito bem planejado, o coração alucinado da escritura tem seu próprio estilo. "Sou aos poucos. Não tenho enredo." E, no momento de construir um fato, eis que vai assim: uma linha hoje, um trecho mais amanhã e o terceiro fragmento que tenha surgido quando menos se esperou. Sempre foi preciso tempo para que os retalhos fossem alinhavados em um conjunto: seu maior labor era coordenar idéias que estavam soltas, trechos escritos deixados a um canto - mas, como partes integrantes de uma só consciência, enfim formavam uma sinfonia. Talvez essa técnica lhe permitisse melhor transmitir o despreendimento das coisas do mundo, a legitimidade de seu texto, o caráter transgressor. Porque em Arte, é preciso provocar. Não se trata de uma brincadeira descompromissada. Há intenção, intencionalidade. E nos livros para crianças que Clarice escreveu? "Já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas". Ora, também não parece haver redução das palavras, nem clausura ou distância entrelinha. Seria inútil separar OS LIVROS PARA CRIANÇAS DE CLARICE LISPECTOR do conjunto de sua produção quando todas as obras possuem características semelhantes do ponto de vista filosófico, intimista e introspectivo. Mas, ao se dirigir a um público tão-especializado, a autora fez uso de alguns elementos (quiçá) mais próximos ao universo infantil: como a presença de animais, em geral, pertencentes ao mundo doméstico. E quando os bichos não são as personagens principais, sua presença são garantidas pelo fato de provocar no leitor um reconhecimento imediato de sua natureza. A constante intimidade com os animais é explicada por Clarice: "... os bichos me fantasticam. Eles são o tempo que não se conta. Pareço ter certo horror daquela criatura viva que não é humana e que tem meus próprios instintos embora livres e indomáveis. Às vezes eletrizo-me ao ver bicho. Estou agora ouvindo o grito ancestral dentro de mim: parece que não sei quem é mais a criatura, se eu ou o bicho." FALA COM O PEQUENO LEITOR é mais direta, em contrapartida ao diálogo travado com o leitor adulto - que é feito de maneira mais seca, áspera até. Para com o leitor-criança, há doçura, promessa de carinhos, magia e fantasia comedidas. O enigma ainda é necessário. Seu discurso é dado aos vocativos, Clarice interpela, solicita, questiona. Em O Mistério do Coelho Pensante, plasma-se o leitor virtual na figura de Paulo (que é o nome de um dos filhos de Clarice Lispector e, como ela explica de início, foi quem pediu a ela para a história ser inventada). Existe, portanto, uma ligação afetiva. Mas isso não impede a autora argumente de modo desafiador: "Pois olhe, Paulo, você não pode imaginar o que aconteceu com aquele coelho". E, em A Vida Íntima de Laura, está dito: "Agora adivinhe quem é Laura. Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte! Dê três palpites. Viu como é difícil?" Acreditando na criança, Clarice chega com o incentivo de fazer pensar e tomar consciência de alguns fatos simples, até mesmo banais. Vez ou outra, transborda o apelo como quem pede compreensão e amor: "Peço a você o favor de gostar logo de Laura...", ou "Estou com esperança de que, no fim do livro, vocês já me conheçam melhor e me dêem perdão...", em A Mulher que Matou os Peixes. E tudo mais surge com a preocupação de instruir e instigar: "Vou te dizer como é que o mundo é feito", em contraponto quando ela confessa: "Mas aí que está o mistério: não sei!". Aos poucos, vai explicando como é conviver com adultos, "complicados por dentro" e "obrigados a mentir", pois não entendem a simplicidade do mundo, a sua essência: passam a existência sem conseguir enxergar os "xexts" da vida. Enfim, coisas de sua natureza crescida...
Um dia, emprestada ao vizinho e longe de seu amado marido, Laura se confronta com o estremecimento, uma nova realidade e "tudo foi melhorando porque ela começou a arranjar amigas entre as galinhas". Quantas vezes não vivenciamos situações assim? Da intimidação diante do ambiente desconhecido até reconquistar a confiança, vai um tempo para ficar mais à vontade, ter livre trânsito de um lado para o outro... E, na vida dessa galinha chamada Laura, já amada por seus leitores, ainda acontece mais: a visita de um extra-terrestre: veio para protegê-la. Qual a magia que envolve Laura? O ser extra-terreno e extra-terreiro desce de Júpiter, dos céus, como um anjo-da-guarda, anunciador.
Sem dúvida, um anjo particular, projeção de sua própria essência que deve permanecer em segredo... e é fácil lembrar que Clarice era extrema em sua religiosidade para acreditar nas aparições misteriosas, sagradas. Não haveria inevitável paralelo com a Anunciação de Maria ou a visão dos anjos na escada de Jacó? "Por que você me escolheu para se apresentar?"
De início, o coelho vive confinado no espaço restrito de sua casinhola com grandes estreitas e um pesado tampo de ferro. Mas o danado consegue sair dali. Fugindo, primeiramente para atender uma necessidade básica: conseguir alimento, procurando cenouras. Fugindo, depois para atender a necessidade de sua natureza de pelo branco: experimentar o mundo, um espaço imenso onde há realização e prazer, conhecendo o que existe a sua volta, conquistando a própria felicidade: "Só há dois modos de descobrir que a Terra é redonda: ou estudando em livros, ou sendo feliz. Coelho feliz sabe um bocado de coisas." E, entre a comodidade e a busca, ele busca. E qual é o mistério do coelho pensante? Como saiu de lá, da casinhola, se através das grades - nunca - ele passaria (era gordo demais), e suspender o tampo de ferro - jamais - conseguiria (era muito pesado)? E então, como? A própria Clarice responde: "Não sei!" Aqui está a graça e o enigma, a transfiguração do impossível em realidade. Para fazer pensar. E para fazer o leitor chegar a alguma sorte de conhecimento, a autora lida com os contrastes, caracterizando as aparências e as essências. João, conformado e com cara de bobo, também é lindo e feliz. Laura, que sobre de burrice crônica, tem segredos guardados em suas intimidades; tem o pescoço feio, mas é linda por dentro.
"Antes de começar, quero que vocês saibam que meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e o meu coração vai ouvir." Nesta obra, Clarice Lispector aproxima-se de seu leitor fazendo-se personagem: uma mulher que erra como todas e muitas outras mulheres, que matou frágeis peixinhos vermelhos! Sem querer, é verdade, mas matou. Dois vermelhinhos. E a mulher-que-matou os peixes se entrega a uma gesto amplamente humano para redimir sua culpa que é a confissão. Como qualquer outra pessoa, ela se permite algumas generosidades. Mas sente-se perturbada pela cumplicidade que tem com a Vida. Clarice desabafa: "A mim, a bondade me intimida." Vamos lembrar Jung que afirmava "o homem é um animal religioso por natureza". Clarice Lispector busca, assim, a redenção de sua alma de personagem perante o júri de crianças-leitoras. O que muito chama a atenção nesta obra é sua estrutura de encaixe, vários episódios dentro de um único fato. Cada história é então um argumento que inocenta ou favorece a culpa da narradora. São confidências de amizade e convívio com bichos naturais: aqueles que ninguém convida ou compra para morar com a gente: menos rato: galinha, coelho, gato, cachorro e baratas e lagartixas pequenas. Há ainda a estranha relação entre a mulher e os macacos: justo eles que se parecem tão humanos. Lisete é uma miquinha com cara de mulher e irá provocar em Clarice o reconhecimento, através do olhar que a mulher pousava sobre o animal.
Pois Lisete também sempre olhava a dona - quem sabe não se via refletida nas aparências de Clarice? Um mesmo fato, filtrado por olhares diferentes, revelam duas realidades diferentes - ou, pelo menos, dois de perceber: contemplar e ser contemplado. "Não posso ficar olhando demais um objeto senão ele me deflagra", é dito em Um Sopro de Vida. É o poder de transmutar o objeto mais banal, o cotidiano, as situações mais prosaicas em verdades literárias, cheias de magia e mistério, vida que se esconde além. É a busca de amor, cumplicidade, comunhão. Lembrando a mastigação ritual da artista G.H., eis a hora da estrela: intersectos, escritor-escritura-mundo.
BiblioGrafia _____. Inéditos de Clarice, para se conhecer melhor Clarice. Jornal da Tarde, São Paulo, 30 mai. 1981. _____. A silenciosa revolução de Clarice. Jornal da Tarde, São Paulo, 12 dez. 1987. |