JORNAL DA TARDE

10 de dezembro de 1977


 fora de circulação

O elogio que não substitui
e soluço, a revolta.

Ferreira Gullar

     Meu conhecimento de Clarice Lispector data de 1957-58, quando ela estave na redação do suplemento dominical do Jornal do Brasil. Impressionou-me o seu rosto eslavo, forte e belo, com alguma coisa de animal felino. Ela tinha para mim a aura do mito, tanto me haviam impressionado os seus livros estranhos, tecidos numa linguagem mágica, sem equivalente na literatura brasileira. E essa magia estava nela, como pude constatar outras vezes, nas conversas que mantivemos, qualquer que fosse o assunto.

     Mal regressei ao Brasil, ela me chamou por telefone, queria entrevistar-me. Embora me tivesse comprometido a dar a primeira entrevista a determinado semanário, não pude me negar à solicitação de Clarice e fui ao seu encontro. Por seu temperamento e por seu alheamento às convenções, ela não tinha a bossa do entrevistador. Custava-lhe realizar esse trabalho, a que era obrigada para ganhar a vida. E ganhava pouco, tão pouco que, agora, quando adoeceu, não tinha recursos para pagar médico e hospital. Esta é, porém, salvo raras exceções, a condição do escritor do escritor brasileiro. O que não deixa de nos amargurar quando se sabe que Clarice Lispector deu tanto de si à nossa literatura e ao nosso país. Ela foi uma das mais altas expressões literárias de nossa época, em qualquer língua. Não honra ao Brasil que ela morra nas condições em que morreu. Agora virão as homenagens póstumas e é possível que amanhã seu nome seja dado a alguma viela da cidade. Clarice não ambicionava isso. Nem sequer se queixava de nada, a não ser do próprio tormento que significava para ela escrever. Tormento que era, ao mesmo tempo, o seu único modo de relacionamento profundo com a realidade.

     Não sei o que é um gênio, mas suponho que havia nela traços de genialidade. Um de seus últimos livros -- Água Viva -- conduz a indagação existencial a um tal nível e com tal força poética e dramática que só poderia ser escrito por um Rimbaud adulto. A sua derradeira novela -- A Hora da Estrela -- é um livro-limite, onde a escritora praticamente dissolve as fronteiras entre a vida e a literatura, como a querer ir além da sua própria arte imcomparável. Mas quase sinto vergonha de escrever tais coisas, neste momento, quando sei que o corpo morto de Clarice está trancado numa urna, quando sei que nunca mais ouvirei sua voz nem verei a luz misteriosa de seu olhar. O elogio não substitui o soluço, nem a revolta.

     Esta manhã, ao lavar o rosto, sabendo-a morta, pensei, comovido: "Continuo nesta dimensão onde se sente na pele a frescrua da água". Mundo de nuvesn, praia, ônibus, palavras. A que ela não mais pertence.



 fora de circulação

Para os amigos,
o consolo da grande herança.

     Velho amigo de Clarice Lispector, o poeta e compositor Vinícius de Morais ainda não sabe se irá ao enterro de sua amiga. Sua morte inesperada, o estima da doença que a levou, fazem com que o poeta continue chorando, chocado: "Não foi apenas uma perda para os seus amigos, mas para toda a literatura brasileira. Embora não fizesse poesia para o chamado grande público, ela tinha sensibilidade para atingi-lo quando queria. Era uma personalidade misteriosa, por isso torna-se difícil para qualquer um definí-la tal como era. Guardava para si, desabafava-se consigo mesma ou nas suas poesias. Perdemos nós, perdeu o povo, perdeu o país".

     Farida Aissy -- a autoa premida de "Os Búfalos Pastam Entre Flores" -- não era apenas amiga de Clarice, mas sua discípula. Sua primeira obra foi totalmente dedicada à Clarice. Emocionada, ela não pôde fazer nenhum depoimento. Prefere dizer apenas algumas palavras de Clarice em seu último livro: "E agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só aogra me lembro que a gente morre. Mas -- eu também?"

     Para Rachel de Queiroz, "a perda da literatura brasileira é terrível, porque a obra de Clarice Lispector era das mais importantes. A morte a pegou em sua fase mais criadora, mas isso não impedirá que ela continue conosco. O que deixou já é um consolo".

     E para Rubem Braga: "O Brasil perdeu hoje um dos seus maiores talentos literários. Desde seu primeiro livro, publicado há 18 anos, nos legou uma personalidade fortíssima. Construiu uma bela obra, com romances, contos e histórias para crianças. O último livro, A Hora de Estrela, foi uma pequena obra-prima, amarga, fantástica. A pessoa de Clarice era tão maravilhosa quanto a escritora. Perdemos a duas coisas, mas nos resta o consolo de nos deixar um verdadeiro legado literário".



 fora de circulação

Por De Chirico
O belo animal sagrado a
nossa literatura

Remy Gorga Filho


     Estranho: penso em Clarice Lispector ainda viva e grande entre nós e não consigo afastar de mim e das lembranças de noss último encontro a fustigante definição de Léo Gilson Ribeiro: "Ela é o animal sagrado da literatura brasileira".

     Estamos em Porto Alegre, outubro, 1976. Há os ventos de outubro, outono, há as flores mortas no chão da Praça da Alfândega. Há um hálito de calor úmido que percorre essas velhas ruas, gente correndo. Mas há os amigos e uma vontade imensa de lhes abraçar, de lhes ouvir -- o precioso saber de suas vidas.

     Rio, março, 1969 -- "De repente descubro que estou me transformando, para eles (os leitores), num monstro sagrado".

     Tenho diante de mim uma mulher dolorida. É meu primeiro contato com Clarice Lispector. Estamos no Leme, faz sol, o azul do mar se vê, de longe, como fios de prata encrespados, já não se fala mais em carnaval. Ela se recusa a ser uma mulher inatingível. Só não compreendia o afastamento físico do leitor.

     Para mim ela foi a grande contista mulher que jamais tivemos. Clarice, ucraniana e nordestina, era e ficou (embora não o querendo) o belo animal sagrado da literatura brasileira.