O ESTADO DE S. PAULO
Domingo, 12 de janeiro de 1992
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Dor e liberdade nos quadros de Clarice Lispector
Dezesseis telas inéditas, conservadas pela
Casa de Rui Barbosa, no Rio, mostram
que a pintura rebelde da romancista deu
forma plástica à angustia que expõe em texto
Carlos Franco
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RIO - "Meu ideal seria pintar um quadro de um quadro", diz a personagem Angela Pralini, de Clarice Lispector, no livro póstumo Um Sopro de Vida (1978).
E Clarice pintou. Não um, mas vários quadros, que permanecem inéditos até hoje.
O Centro de Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa, no Rio, tem em seu arquivo 16 telas de Clarice.
Carregadas de emoção, algumas delas, pintadas entre 1974 e 1977, sugerem o sentimento diante da morte que marcou seus últimos anos e que aparece também nos fragmentos de Um Sopro de Vida, um diálogo denso entre autor e personagem, consciente e inconsciente.
"O que me separa do mundo é a minha futura morte. A morte será o meu maior acontecimento individual: a pessoa se despe de si mesma para morrer sozinha de si", escreveu.
Mas se a literatura de Clarice é marcada pelo rigor técnico --- "escrever é fisgar nas entrelinhas as palavras", ela afirmou --- seus quadros são um exercício rebelde de liberdade.
A própria Clarice/Ângela descreveu a forma
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 Luta Sangrenta pela Paz, de 1975: tensão tratada com cores claras e dispersas |
como foram produzidos e os recursos e materiais utilizados: "Vivo tão atribulada que não aperfeiçoei mais o que inventei em matéria de pintura.
Ou pelo menos nunca ouvi falar deste modo de pintar: consiste em pegar uma tela de madeira --- pinho-de-riga é a melhor --- e prestar atenção às suas nervuras.
De súbito, então, vem do subconsciente uma onda de criatividade e gente se joga nas nervuras, acompanhando-as um pouco, mas mantendo a liberdade."
No quadro Sem Sentido, que pertence ao arquivo da Casa de Rui Barbosa e é citado no livro como uma obra de Ângela
("Estou pintando um quadro com o nome de Sem Sentido. São coisas soltas --- objetos e seres que não dizem respeito, como borboleta e máquina de costura"),
Clarice seguiu as nervuras da madeira para desenhar. Pintou com tinta, cola plástica e vela derretida, objetos soltos, intercalados por pontos de interrogação.
O quadro, pintado no dia 19 de julho de 1975, foi chamado por ela de Caos, depois Metamorfose e, por último e definitivamente, de Sem Sentido.
Dos 16 quadros que estão no arquivo, 15 são em madeira de pinho-de-riga e uma em tela.
Procurando corresponder-se através de quadros, Clarice enviou em abril de 1975 uma mandala para a também Olga Borelli, que organizou em livro
 Tentativa de Ser Alegre: o cão Ulisses no vazio que ela antecipa para depois da morte | | |
os fragmentos de Um Sopro de Vida, desejando-lhe sorte.
Olga respondeu a correspondência com um quadro, também em pinho-de-riga, com cores claras, fundo branco e dois traços azuis em forma de asas de borboleta ou pássaro estilizado.
Em todos os quadros de Clarice prevalece o vermelho e o negro. Em Explosão, de maio de 1975, e em Luta Sangrenta pela Paz, pintado em 15 de maio de 1975, o vermelho e o negro destacam os contornos de outras cores, várias, que, ao contrário das demais, resultam em formas alegres, claras, ao mesmo tempo que explosivas e dispersas.
A solidão está presente no quadro Tentativa de Ser Alegre, datado de 15 de maio de 1975. Nele, o cachorro Ulisses, de Clarice, aparece estilizado na cor salmão carregada de reflexos de cola plástica e fundo negro, revelando a preocupação de Clarice/Ângela com a morte e o depois da morte:
"Eu quase que já sei como será depois da minha morte. A sala vazia, o cachorro a ponto de morrer de saudade. Os vitrais de minha casa. Tudo vazio e calmo."
No quadro, o cachorro na sala escura é iluminado pelos vitrais da cola plástica. Clarice surpreende e pinta em quadro pulsações que compõem seu testamento literário.
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- Na matéria, ainda há uma foto da escritora com a legenda:
Clarice: pintando como Angela de Um Sopro de Vida
- Crédito das fotos das duas telas: Tatiana Constant/AE
- Veja também outras telas de Clarice Lispector no Especial Cultura
do jornal "O Estado de S. Paulo", em 10 de dezembro de 1997: A pintora: imagens que buscam a alma
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