• este Rimance do
    BOI-ESPÁCIO é uma variante do Ceará e está no livro Cantos Populares do Brasil de Sílvio Romero, publicado em Lisboa, em 1883

  • em 1985,
    a editora Itatiaia em parceria com a Universidade de São Paulo fez nova edição para a obra, dando-nos o volume 86 da série "Reconquista do Brasil"


  • Por onde passa o Boi?

    Boi-Espácio



    Foi garrote, foi capado
    No curral da Piedade;
    Nunca temeu a vaqueiro,
    Nem a vara de ferrão,
    Nem mesmo José de Castro
    no cavalo Riachão.

    Dele fez-se uma canoa,
    Para embarcar a gente
    Do Recife pra Lisboa.

    Dos olhos do Boi-Espácio
    Deles fez-se uma vidraça
    Para espiar as moças
    Quando passeiam na praça.

    Da cabeça do Boi-Espácio
    Dela se fez um banqueiro
    Para retalhar a carne
    Da gente do Saboeiro.

    O couro do Boi-Espácio
    Tirado por minha mão,
    Deu trinta jogos de malas,
    Nove pares de surrão.

    A rabada do Boi-Espácio,
    Tirada por minha mão,
    Deu trinta laços de corda,
    Nove pares de surrão.

    A carne do Boi-Espácio
    Botada no estaleiro,
    Comeram vinte famílias
    De janeiro a janeiro.

    O corredor do Boi-Espácio
    Deu tamanha corredeira,
    Que todo o povo do Crato
    Ficou-se de caganeira.

    As tripas do Boi-Espácio
    Tiradas por minha mão,
    Deu dez cargas de lingüiça,
    Onze arrobas de sabão.

    Do debulho do Boi-Espácio
    Dele se fez barrela,
    Para se lavar a roupa
    Da gente da Manoela.

    Da unha do Boi-Espácio
    Quatro obras se formou:
    Uma jangada, uma lancha,
    Um palácio e um vapor.

    Das orelhas do Boi-Espácio
    Quatro obras se formou:
    Um abano, uma esteira,
    Uma maca, um tambor.

    Este meu Boi-Espácio
    Morava em dois sertãos,
    Comia nos Cipoais,
    Bebia nos Caldeirões.

    Matei o meu Boi-Espácio
    Em uma tarde serena,
    Toda a gente da ribeira,
    Que não chorou, teve pena.

    Por onde
    passa o Boi?