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Boi Santo
Conta Cascudo, que é Câmara Cascudo, o ano de 1900... Padre Cícero ganhou um novilho zebu
de presente. Seu nome era Mansinho e Padinho o fez logo ir para uma propriedade
sua no interior do estado do Ceará, no município do Crato. Incumbido da missão foi
o Negro José Lourenço, a seu serviço e dispor. O criado, encantado com a formosura e toda
mansidão do pequeno zebu, foi por todo caminho fazendo-lhe promessas e orações...
Era plena a estiagem, tempo de seca, mas o danado do José Lourenço prometeu um feixe de capim
verdinho, mesmo assim... na hora de pagar o voto, não houve alternativa a não ser trazer
capim furtado. Dizem que Mansinho recusou a comer o pasto alheio e mugiu contra o negro
que, em toda sua ignorança, acreditou que o espírito do padrinho Cícero viesse
intervir com o boi. Oras, foi apenas o começo da devoção...
Com o tempo,
outras secas naquelas paragens, romeiros e romarias iam e vinham cultuar Mansinho... que comia
em manjedoura enfeitada, ele mesmo todo paramentado de fitas pelos chifres e pelo rabo, até nos
testículos. E foi vivendo coberto de terços, rosários, santinhos e estampas várias, carinhos e
minguau dos bons.
Muitas estórias aconteceram, muitos fiéis seguiram até Mansinho,
esperando receber dele uma graça. Alguns se contentavam em conseguir um pêlo do animal para
trazer consigo como amuleto, uma relíquia sagrada, capaz mesmo de curar doentes e trazer a
boa sorte. E se não fosse pêlo, era a raspa de seus cascos e cornos, excremento ou urina,
até a baba do boi que, para o coração dos homens, tornava-se santa.
Perdição de vida
foi aquele dia de 1912 em que decidiram matar o Mansinho, por ordens de um deputado de Juazeiro
e com o consentimento do próprio Padinho Ciço. Pois o animal estava se tornando demais
poderoso para o seguimento das coisas, da ordem natural do mundo. Dia de pranto e luto para
muitos devotos, apenas mendigos do Crato aceitaram de bom grado a esmola da comida, a carne de Mansinho.
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