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I - Alegria, Alegoria
É o Boi uma das representações mais fiéis de nossa brasilidade, um pedaço de nossa cultura, de nossa própria História, parcela da razão do que atualmente somos. Assunto discutível, mas de fácil constatação no levantamento do número de projeções artísticas realizadas sobre este grande animal, quadrúpede de andar vagaroso, resistente ao tempo e desbravador de espaços.
Como parte da natureza, simplesmente animal, o boi deixou profundas marcas no processo civilizatório, de expansão rumo ao interior do país. No entanto, não está ligado a um momento histórico preciso, a nenhuma fase do boi, como houve a fase do ouro, a fase do açúcar ou a fase do café, embora inscreva a extensa civilização do couro. O animal vai assim, além dos progressos itinerantes, é a própria permanência do Brasil.
Agarrado à terra, sua diligência é quase estática, confundindo-se com a paisagem. No trato com o homem, carrega em suas costas o fardo da honestidade e do trabalho resignado. Assim, é estimado com respeito, com direito a tratamentos especiais, como lembra Thaís de Almeida Dias:
Os que lidam com esse animal chegam, inclusive, a introduzir uma linguagem sonora para melhor obter resposta dos bois que comandam. Na região sudeste, utiliza-se o berrante -- chifre que produz sons diversos conforme é soprado; na região nordeste, é a própria voz humana, em forma de aboio, que conduz os bois aos caminhos determinados pelos seus tratadores. (1)
Caminheiro, foi o Boi da guia e da sela, cambão ou carreiro, de piranha... Assim, comovente nesta marcha de entrega e sacrifício, segue adentrando o imaginário popular, terra fértil de sua própria cultura onde são encontradas searas de casos, cantigas, estórias, coisas de nosso povo. Uma genuína paga de gratidão. Deste modo, não é mais de sua imagem bovina que falam os homens, mas de uma entidade maior, divinizada e sobre-humana: uma representação coletiva que ganha voz própria e toda riqueza de alma -- ressonâncias afetiva e religiosa. Em notas esparsas, reunidas postumamente, Mário de Andrade escreve:
Chamar atenção que a expressão nacional "boi", assume pro nordestino, e pro nosso povo em geral, uma intensidade muito mais vasta que a simples imagem "boi". É uma legítima "representação coletiva" (...) E se Tamandaré, Mestre Carlos, a lagartixa, o engenho, a mulher etc. são ainda representações coletivas, da terminologia nordestina, sempre o boi se avantaja prodigiosamente a todas estas, pela sua variedade, pela sua complexidade psicológica e principalmente por uma força imperativa de aproximação do homem ao boi, de apelo, de chamado, de encantação por assim dizer. Falo "complexidade psicológica" porque o boi é religioziado no Bumba, e ora é amado como amigo, nos aboios, ora elevado a personagem de mitologia gratuita nos romances etc. (2)
Religioziado no Bumba, eis a principal Alegoria de Boi, "Uma carcaça forrada dum veludo preto, todo bordado e colorido de vidrilhos, canutilhos, miçangas e fitas. É uma fantasia que acende a noite." (3) Folguedo popular que esconde, no conjunto de suas danças, os elementos da arqueocivilização, reminiscências de um tempo primevo, como a comunicação direta entre homens e animais, iguais entre si, falantes-brincantes; as potências místicas e ritualísticas no processo de morte e ressurreição do boi; a distribuição simbólica de alimento (a carne); o banquete totêmico.
A função se dá na véspera da noite de São João, indo o folguedo afora na madrugada de 23 de junho até o romper do dia. O nome mais divulgado, Bumba-meu-Boi, é recorrente no Nordeste; na região Norte, denomina-se apenas Boi-Bumbá. O Maranhão é considerado a capital de seus festejos, embora sua origem em território nacional se situe, em geral, em Pernambuco, dali divulgando-se pelos outros estados.
No entanto, há outras folias de boi que trazem, como aposto, o nome da comunidade promotora da festa ou a referência direta ao material empregado na confecção de sua carcaça, e até mesmo sua forma, como o Boizinho Barrica, Boi Barroso (na região sul da Bahia, o festejo, e no
Rio Grande do Sul, uma cantiga), Boi Calemba, Boi Canário Belém (Pará), Boi de Canastra,
Boi Caprichoso e
Boi Garantido (ambos no Amazonas, variantes de
Boi-Bumbá de Parintins), Boi-de-Fita, Boi de Humaitá (Rio Grande do Norte),
Boi de Mamão (Paraná e Santa Catarina), Boi de Reis, Boi Surubim (Ceará), etc., compondo um painel tão rico de variações que esses bois chegam a ter um caráter extrema- mente individual de tão inventivas suas melodias, como aposta Mário de Andrade:
(...) invenção tão regional que se diria, individual, se esta palavra pudesse entrar como valor positivo em contribuições folclóricas. Por que está claro que tudo é individual, porém perde a individualidade não só por ser socializada e variada logo como porque o próprio indivíduo popular, não age senão como uma fatalidade social. Não é o indivíduo mais não; é apenas o elemento, informativo por assim dizer, de que o agrupamento social se utiliza, pra agir, se reconhecer e se divertir. (4)
No critério musicalidade, os mais expressivos folguedos são os
Bois do Maranhão, divididos em quatro sotaques: Boi de Matraca, Boi de Zabumba, Boi de Pindaré e Boi de Orquestra, que, por sua vez, aparecem subdivididos em novos grupos, de acordo com o nome do bairro onde acontecem ou do Curral -- equivalente ao que é o morro ou o barracão para os grêmios recreativos de escolas de samba e clubes carnavalescos -- local de ensaio para as pessoas dessas comunidades. Os principais são: Boi da Madredeus (matraca), Boi de Monte Castelo (zabumba) e Boi da Areinha (pindaré).
É Mário de Andrade quem ainda cognominou o Bumba de "dança dramática", uma vez que, além da folia, o folguedo encerra uma narrativa -- em seu núcleo central, as personagens mais freqüentes do auto são encontradas nas figuras do Amo (dono das terras e dos bois, verdadeiro dono de quase todas as coisas, o senhor branco), de Pai Francisco (o negro Chico, inteiramente fiel ao Amo, mas que irá furtar o boi estimado), de Catirina (a mulher, prenhe do negro, que deseja comer um bocado da língua do boi) e do Pajé-índio (aquele que opera o milagre, fazendo viver o boi depois de morto).
As variações ficam por conta das personagens secundárias, como vaqueiros (no Boi-Surubim do Ceará: Birico, Fidélis, Gregório, Bastião e Mateus); às vezes, um pai-de-campo é o responsável pelo rapto do boi; o amo também chamado Cavalo-Marinho; caboclos de pena, cordão de bichos (Ema, Sapo, Sabiá), o Arlequim, Cazumbá, o Doutor, o Padre e diversos palhaços em ritmo de paródia dos homens, figuras demoníacas.
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