''Bumba meu Boi, Matraca e Pandeirões'' (1996)

Quadro « BUMBA-MEU-BOI, MATRACA E PANDEIRÕES »
de Fábio Castejon Resende


Do Boi ao BrasilBumba

Documento em 4 Partes
de Peter O'Sagae
II - Boi-Sol da Meia-Noite

No início das atividades, marca espera a Hora de Guarnicê, instante dos últimos preparos e de concentração, os brincantes arrumam detalhes e o espírito próprio de suas fantasias. Costume do momento, é ter alguém sempre encarregado de molhar o Boi, "a garrafa de cachaça correndo, fraternalmente, de boca em boca, porque 'boi seco' é um boi absolutamente desmoralizado". (5)

E o silêncio é geral.

Um Mestre, homem de mais idade e vivência, o tirador de versos principia seu canto-Chão. É imediatamente seguido pelo coro, conjunto instrumental e demais pessoas que tomam parte da função, regidos por um Contramestre, aprendiz direto do ofício de tirar boi, isto é, improvisar; por ora, seu trabalho é repetir os versos originais e dirigir a cantoria. Daí adiante, apenas folia, conforme transcrevemos do roteiro de O Boi e as Paragens do Bumba:

O Bumba-meu-Boi é antes de tudo uma festa para quem assiste e para quem participa. Os vaqueiros aparecem neste folguedo, em suas calças de cetim azul ou vermelho ou amarelo, colete de veludo bordado e com grandes chapéus de abas com fitas e mais fitas. Outros brincantes comparecem transvestidos de outras pessoas, de animais ou seres mágicos.

Acompanhados por um conjunto instrumental de bumbas, ganzás e matracas, os brincantes carregam consigo bexigas de boi, cheias de ar, a dar uns nos outros, e por vezes, no público.

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No folguedo do Boi, já ressurrecto, a cantoria é tirada até os primeiros sinais de claridade. No entanto, não há o menor sinal de cansaço: público e brincantes ainda dançam mantidos pela cachaça. Das brigas que aconteceram na função, os homens esquecem. Talvez levem para casa algum dinheiro, pois cada ator teve o seu tempo para fazer sua coleta, com mãos estendidas, o chapéu estirado, a piada bem contada. Resta partir, despedir-se da alegria do dança-boi... Promessa de Novo Boi só para o ano seguinte! (6)

A tônica do boi é a crítica social, exercitada através da sátira, presentificando um sentido reivindicatório, subvertendo a ordem do Estabelecimento. É costume o Padre, figura que inspira muito respeito nas comunidades agrárias, ser aquele quem mais apanha nesta festa, frente ao fracasso de ressuscitar o animal. Já aconteceu também momentos de graça, quando um negro fugidio volta para o capão, cantando esses versos, fazendo cordas de rédeas, montado nas costas de seu capturador:

Capitão-de-Campo,
Veja que o mundo virou:
Foi ao mato pegá negro
Mas o nego lhe amarrou! (7)

Em seu caráter de Folclore Vivo, temas da atualidade servem de inspiração, como fatos políticos, o nascimento do primeiro bebê de proveta ou a chegada do homem à Lua. Houve até uma representação que inseriu um foguete como elemento de cena, dele saindo um astronauta capaz de operar o milagre da ressurreição do boi.



Peter O'Sagae
Roteirista, autor de programas de Rádio
e pesquisador das Tradições Orais



I - Alegria, Alegoria II - Boi-Sol da Meia-Noite III - Aboio da Raças IV - Olho-de-Boi

SAGAE, Peter O'.  Do Boi ao Brasil-Bumba: alegria, alegoria.   In:
Revista TEMA, São Paulo, Faculdades Teresa Martin (32) jul-dez. 1998.
Por onde passa o Boi? ?