|
III - Aboio das Raças
As festas de Boi encontradas em quase todo o país, exceto na região central, possuem uma origem portuguesa, senão de todo européia. Com muita proximidade, assomam as figuras do boi fingido das Tourinhas do Minho, dos Touros de Canastra e as Touradas cômicas, referência indubitável das Touradas espanholas -- que ressoam nos modos cruéis da Vaquejada, do Boi-na-Vara e da Farra-do-Boi. Também na França existe o cortejo do Boeuf Gras, executado nos salões e apontado constantemente como fonte inspiradora das folias brasileiras.
Atravessando o tempo, o caráter totêmico, assumido pelo Boi no Brasil, remontaria outras paragens. Uma trilha imaginária pode ser traçada, partindo do Longínquo Oriente, principalmente da China, onde eram respeitados como divinos auxiliares na agricultura e serviam de montaria aos sábios; passando pela Índia, na condição de Ser Sagrado, era o responsável pelas chuvas e, alcançando o Egito, sua miragem revela entre cornos o Disco Solar.
Do outro lado do Mediterrâneo, na Grécia, inúmeros ritos irão honrá-lo em sacrifícios aos deuses e será nos mitos que aparecera como elemento figurativo de importância em muitas narrativas -- o nascimento de Hermes, com o episódio do roubo dos bois de Apolo; a manada branca de chifres de ouro de Hélio, deus Sol, na saga de Odisseu (Ulisses); os bois do gigante Gerião, vencido por Héracles (Hércules); além de toda a companhia de touros: Zeus se metamorfoseia no animal para raptar Europa; transforma a ninfa Io, uma de suas muitas amantes, em novilha para escondê-la da ira de Hera; o Minotauro de Creta, entre outros, mas principalmente, aos mistérios da Terra nos mitos e cultos de fertilidade que envolvem os nomes de Deméter e Baco. Das afamadas Bacanais, teremos o mesmo espírito ébrio e satírico que envolve os festejos do Bumba-meu-Boi, tempo e espaço de êxtase
"porque a bebida corre solta e o diabo parece envolver-se dos homens" (8); daí a corrente expressão sem equívoco, para descrever o folguedo, festa báquica.
Ao lado dos caracteres considerados pagãos, há a presença do sagrado crístico. Nessa distinta função religiosa, a representação do Boi relembra outros cultos que vêm desde o nascimento do Menino Jesus, para depois juntar-se à vida pastoril do Nordeste e à civilização do couro de cultura sertaneja. Descansando no Presépio, o Boi adora e acalenta, bafeja proteção.
Na alquimia das tradições, o Boi do Bumba resulta sacro e profano, não somente pela contribuição portuguesa que angaria para o Brasil toda a riqueza cultural do Ocidente e do Oriente. Os processos de assimilação e transculturação ainda decorrem de outros saberes populares, de raízes indígenas e africanas, pois o folguedo encerra o verdadeiro drama brasileiro.
Suas figuras centrais, tomadas como exemplares do Boi do Maranhão, são o Senhor branco, o casal descendente de África, Pai Francisco e Catirina, mais o brasileiro por excelência representado na figura do Pajé. O conflito social que nos dá a História também perpassa a crônica do Boi. No entanto, dores e mágoas se dissolvem musicalmente no ritmo de integração das raças. Obviamente, aqui a Alegoria-objeto Boi cede lugar para a Alegoria Símbolo-Boi de todo o país, como catalisador da interdependência do modus vivendi de cada grupo étnico em novo território-nação.
O Português é quem fornece a base da organização lingüística, ainda que modificada por outros sotaques, sendo o código dominante nesta relação. De sua estrutura de pensamento, talvez, venham os conceitos de Carnavalização e paródia. Assim, é ele quem traz o sentido profano da festa, com seus palhaços e diabos, sombras da sociedade cristã. A matraca é retirada das procissões santas, esvaziada de sua sonoridade sinistra, por ventura trazida pelos galegos-crioulos vestidos em seus coletes bordados e calças ao joelho. O apelo da bebida, a embriaguez como forma de atingir o êxtase, e a permissão para surrar o Padre sem o risco de excomunhão são apenas necessidades de rebeldia suas. E, no entanto, ele ainda permanece no centro da organização, é o Amo Branco, senhor de bois, manejador destro do rebanho e da comunidade. Embora ferido em suas posses, será recompensado com um novo animal.
A participação do Índio se dá a saber na plumagem dos adereços e fantasias, no cordão-de-bichos (menos o cordão, mais os bichos -- ema, sapo, sabiá, etc.) e na presença de guerreiros, com arcos e flechas; dos caboclos de pena, seus filhos com o europeu. Comunga com o negro os ritos mágicos da tradição tribal, a concentração do ritmo impressivo sobre o corpo e a dança de pés batidos no casco-chão. Comparece fortemente na imagem do Pajé, advogado espiritual das tribos junto às forças místicas da Natureza, sábio e curador, capaz de realizar o impossível com suas ervas e orações.
O Africano trouxe seus ganzás e bumbos, influenciando grandemente o nome e a música do folguedo popular. Bumba, em conguês, é bater, é batida -- instrumento e verbo que move a folia. Pai Francisco e Mãe Catirina, embora não mais escravos e reconhecidos como patronos de um povo, trazem as marcas do tempo de engenho, servindo com obediência ao senhor dos bois. Ela, redonda como a Terra à espera de mais um brasileiro, é a destinadora de todas as ações, o estopim do conflito temático.
|