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IV - Olho-de-Boi
A obsessão pelo Boi pode ainda ser contada e cantada, no território folclórico e fora dele, em manifestações peculiares e próprias da cultura brasileira. Sob a máscara-enigma da Alegoria, escondem-se tantos nomes como a imaginação pode criar:
Boi de Axixá, Boi de Cova, Boi da Geralda,
Boi-Santo (nos autos que recontam a vida do "Padim Ciço", Ceará), Boi Misterioso no cordel, Boi-Tungão ou Boi do Maioral (o próprio Demo),
Boi Vaquim (na Região Sul: assombração alada, boi inteiramente branco e fantasmagórico)... E quem não se lembraria do
Boi da Cara Preta trazendo vagarosamente o sono para a criança irrequieta? Nanarissa ou canção de ninar tradicional que admite um regional Boi do Piauí como variante.
De Norte a Sul do país, há também várias estórias ou romances populares, bem rimados e ocasionalmente tirados na viola, como toada ou moda, perfazendo o velho caminho das tropas. São as narrativas chorosas do Boi Barbatão, Boi Marruá, Boi Malhado,
Boi Barroso (Rio Grande do Sul), Boi Amarelo,
Boi Amarelinho, Boi Pintado, Boi de todas as qualidades de tons e cores, Boi Sarado, Boi do Mês de Maio, Boi Pisquim, Boi Pasquim, Boi Bizerru, Boizinho... Em geral, é o animal quem toma a palavra, contando sua trajetória desde o nascimento:
Eu sou aquele boizinho Que nasceu no mês de maio, Desde que nasci no mundo
Foi só pra sofrê trabaio.
Eu nasci... Lá nas margens do riozinho,
Por causa de minha cor, Fui chamado Amarelinho... (9) |
A partir do entrecho inicial decorrem aventuras e desgostos, descrição do trabalho pesado, as fugas e conseqüentes capturas e, mesmo depois de morto, o Boi relata como ainda é de grande utilidade para o homem.
Os olhos do Boi Espácio, D'eles fizeram botão, Pra pegar nas casacas,
Dos moços do sertão. (10)
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Não apenas olhos, mas igualmente seu couro, seus chifres e ossos, sua carne e demais miúdos, tudo é aproveitado. O Boi Espácio, no entanto, é consagrado em outros rimances, em especial, de versos que fazem dele um lutador pela liberdade. Cercado pela mão do vaqueiro, o animal chora lágrimas e lança perguntas sobre a razão de sua existência. Com a certeza de seu destino, o curral como limite e fim de sua vida, Boi Espácio avança sobre o precipício...
Essa variante do Romance do Boi Espácio foi amplamente divulgada no período da Ditadura Militar, recebendo diversas versões atualizadas, tanto no repertório popular quanto em formas autorais, simbolizando os anseios da época por liberdade de expressão.
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A inflexão erudita ou semi-erudita sobre os temas relativos ao Boi Brasileiro pode ser conferida na canção
Boi-Bumbá de Waldemar Henrique, já considerada tradicional,
resgatando as imagens de sua festa, desde a introdução batucada (Ele não sabe que seu dia é hoje) aos versos centrais:
O céu forrado de veludo azul-marinho Veio ver devagarinho Onde o boi ia
dançar Ele pediu pra não fazer muito ruído Que o santinho distraído
Foi dormir sem celebrar
E vem de longe o eco surdo do bumbá sambando
A noite inteira encurralado batucando
Bumba meu boi do campo Bumba meu
boi bumbá (12)
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Igualmente ontológica, a suíte
O Boi no Telhado (1928), do compositor francês Darius Milhaud, corrobora a Alegoria animal como eterno emblema do Brasil. Nesta obra, concentram-se paráfrases de temas e motivos brasileiros, utilizando-se o autor de ritmos latinos e árias populares, como maxixe, rumba, samba, tango e, até mesmo, fados portugueses, na forma de rondó; sendo seu título extraído de uma cantiga de roda brasileira.
No entanto, a devoção ao Boi não se restringe a estes dois exemplos. Inúmeras peças musicais de inspiração folclórica podem ser arroladas, mesclando-se o repertório erudito com
o cancioneiro da música popular. Entre os cancionistas que prestam homenagem à figura bovina contam-se nomes como de
Caetano Veloso,
Chico Buarque, Gilberto Gil, Danilo Caymmi, Paulo César Pinheiro,
Carlinhos Brown,
Teddy Oliveira e Luizinho (de O Menino da Porteira), João Bosco, Aldir Blanc,
Walter Franco, etc., o maestro Tom Jobim intertextualizando uma parlenda infantil na canção Passarim:
E o mato que é bom, o fogo queimou Cadê o fogo, a água apagou
E cadê a água, o boi bebeu Cadê o amor, o gato comeu E a cinza espalhou
E a chuva carregou (13)
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Deste modo, podemos verificar como o Boi passeia soberano na paisagem do imaginário, também retratada pelos artistas mais expressivos de sua música popular -- derrubando barreiras entre a manifestação folclórica e a indústria de bens simbólicos da comunicação de massas -- prova que os espaços artísticos são dados à movência. Em seu nome, as fronteiras culturais são extrapoladas, gerando interesses múltiplos e exigindo um novo entendimento, como atesta o musicólogo Lauro Ayestarán (14):
Os grandes cancioneiros transcendem a geografia. E os grandes cancioneiros são unidades musicais mais reais do que as raças, as nações ou os simples contornos geográficos (...) O folclore ri-se da geografia.
Assim, um Brasil-exportação é mostrado e revalorizado em suas tradições, através de um verdadeiro Folclore Eletrônico, como se dá no álbum
Festa do Boï Bumba (1996), do grupo amazonense Carrapicho, lançado primeiramente na França para depois ser prensado no Brasil. O Carrapicho é um dos blocos que participa do festejo-desfile do Boi Garantido de Parintins, representado com um coração na testa e reconhecido nas cores preto-vermelho de suas fantasias. Nesta cidade do Amazonas, o folguedo do
Boi-Bumbá toma ares de competição e carnaval, sendo o Boi Caprichoso (azul e branco), a contrapartida e arquirrival do Garantido. Ambos, criados no início deste século, vêm disputando o título de melhor Boi desde 1912. A cada ano, durante vários dias de junho, os habitantes da ilha de Parintins esquecem o gado bovino -- principal fonte econômica da região -- para remontar suas origens no clima mágico da Alegoria:
Os foliões, cerca de 1.500 de cada Bumbá, tomam as ruas com suas fantasias confeccionadas por artesãos nativos. São batuqueiros, vaqueiros, tuchauas, pajés, tribos, cunhãs-porangas, espíritos da floresta e bichos do mato encarnados de pura alegria, onde o ponto alto dos festejos é a encenação da "morte do boi".
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Quem vê o espetáculo invariavelmente procura descobrir, em cada personagem, a beleza das lendas amazônicas. E não faltam mistérios para desvendar. São lendas misturadas à geografia nativa entrecortada por rios e igarapés, com encantos que só o folclore local sabe dizer. (15)
No entanto, o Boi da Amazônia distingue-se do Boi do Maranhão no ritmo e na dança, influência mais indígena sobre o original nordestino, incluindo novos instrumentos como o pau-d'água, o xeque-xeque e o repenique.
Na dança, o movimento dos corpos das morenas amazonenses, de traços indígenas e cabelos negros, assemelha-se muito mais ao ritmo dançado por índios em dias de festa na tribo. Os índios não apenas influenciaram os rumos do folclore na região, como também participam ativamente da festa. A tribo Saterê-Mawe -- uma reserva de 15 mil indígenas que habitam o município de Barreirinhas, a seis horas de barco de Parintins -- desfila no Caprichoso com fantasias criadas por eles próprios. E das vinte toadas que compõem o enredo desse grupo, os Saterê-Mawe tem seu dialeto presente na "iamãnd", que significa "tempestade" (16)
O Boi prensado em disco, representando parte do Boi Garantido e contaminado pelo espírito da world music, em 11 faixas, resgata bandeiras, caras pintadas, tribos (Açuriny, Caapó, Kamayurá, Tapajós, Carajá, Madeira, Mats, Kanamarys, entre outras), paisagens, vales e rios, ritos, invocações às forças da natureza e orações à santa padroeira, conflitos, guerras, escuridão, sol e alegria. Acentuado, o sotaque indígena em suas canções é igualmente manifesto na profusão do léxico nativo: Tupã, munduru, kananciuê, unankiê, arapiá, painy, monnan, curuça, etc.. No prospecto de apresentação, Sokhna Fall reafirma o senso de integração, encontrado desde o mais rústico Bumba-meu-Boi:
She was beatiful and he worshipped her: African, Indian and Portuguese bloods mingled in their veins. He was only a poor cowherd but she was expecting a child and this condition brought about an irrespressible craving to eat the tongue of the best "Boï" (steer of the herd...) Beauty had her treat, the steer did not die of it and the cowherd was not punished; perhaps because, once in a while, this world might value mixed blood farm hands and their lust for life more than a fat bullock.
Their jubilation is glorified by the "Bumbas" ("drums") during the "boï" festival which commemorates this story. For centuries, the rhythms of "Boï Bumba" have been pulsing trhough poverty-stricken regions of Brazil: Nordeste, Maranhao, Amazonia. Supported by some sixty groups of the greatest variety, from the ritual to the dance music perpetuates to this day a whole popularion's rage for life. Rollicking rhythms, cavorting dances, a challenge to destiny, an incitement to passion... Where samba and folk music of the Andes collide, the "Boï Bumba" reveals unknown aspects of Brazil. (17)
Nesta nova descrição, Catirina deixa seus contornos de negra e assume toda a identidade da Mãe Brasileira, de sangue plural correndo em suas veias. Por isso, é bela e adorada pelo Homem. Nela, os caprichos são irrepreensíveis pois guarda consigo uma semente de vida, promessa de mudança, destino de decisões.
Mas apesar da crescente valorização do festejo popular, os Bois de Parintins sofrem censura por parte dos folcloristas, compositores e criadores de grupos, temerosos com a deformação que podem causar o marketing e a divulgação turística. Lutam para preservar o conteúdo folclórico, pois o animal totêmico não pode se tornar elemento secundário da festa.
O Boi que não morre é, antes de mais nada, objeto de paixão e orgulho. É aboio de mundo, resistente na marcha céu e chão do Folclore Eletrônico... embora dado a eterna lamentação do mugir, resignado também aos novos tempos, continua motivo de Alegria, Alegoria de nossas heranças culturais.
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