''Bumba-meu-Boi'' (1994)
Vai o animal no campo; êle é do campo como o capim, que é o campo se dando para que haja sempre boi e campo; que campo e boi é o boi andar no campo e comer do sempre nôvo chão. Vai o boi, árvore que muge, retalho da paisagem em caminho. Deita-se o boi, e rumina, e olha a erva crescer em redor do seu corpo, para o seu corpo, que cresce para a erva. Levanta-se o boi, é o campo que se ergue em suas patas para andar sôbre seu dôrso. E cada fato é já a fabricação de flôres que se erguerão do pó dos ossos que a chuva lavará,
quando fôr tempo.

Ferreira Gullar
O Boi e as Paragens do Bumba
Roteiro de Peter O'Sagae - Programa apresentado na VI TRIMALCA
Tribuna de Música para a América Latina e Caribe / C.I.M. - UNESCO
Encontro sediado em Mar del Plata (Argentina) em novembro de 1993
1º Prêmio de Rádio - Categoria: música étnica e de raiz folclórica


GULLAR, Ferreira. A Luta corporal e novos poemas. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1966. p. 55.
Quadro « BUMBA-MEU-BOI » de Fábio Castejon Resende


001. BERRANTE - VAI A BG
002. LOC Cultura FM de São Paulo - Brasil
"O Boi e as Paragens do Bumba"
003. MIX : ABOIO - VAI A BG
004. ANNA Homem canto aboio, o boi bole no campo, no canto.
O boi em seus cascos faz o pasto crescer,
nova fronteira, guia seguinte.
005. RODRIGO Téo Azevedo, do Norte das Minas Gerais.
É o vaqueiro que, com seu canto em vogais, o canto aboio,
carrega atrás de si o ajuntamento de animais.
006. ANNA Nos olhos do boi, o mundo é um retalho
espichando ao céu todas as suas redondezas.
Não há silêncio, nem palavras entre eles.
Apenas a certeza cruzada que
o sol vai, a lua vai, a vida vai... ficando lá
boi, pasto e vaqueiro no cavalo.
Qual dos três pode parecer mais paisagem?
Em verdade, qual deles caminha:
o vaqueiro, o pasto ou o boi?
007. RODRIGO Comovente na caminhada, por onde passa o boi
sempre se ouve histórias, casos, cantigas,
coisas de nosso povo.
O animal, dado a eterna lamentação do mugir,
também é motivo para festa.
008. FADE OUT DO ABOIO : FIM DE LOC.008
       ENTRA BUMBA - VAI A BG
009. LOC "O Bumba-meu-Boi", no Sotaque do Pindaré.
010. MIX : BUMBA + GANZÁ - VAI A BG
011. RODRIGO Subindo ao Maranhão, Nordeste brasileiro.
Na Praia da Areinha, em Pindaré,
em frente a capela de São Pedro,
vai essa gente, de alguns desempregados,
outros de trabalho pobre, vai essa gente querendo participar.
Mas, aqui, o Boi não é mais o animal que se move
de canto aboio, entre o pasto e o vaqueiro.
É tão somente alegoria. Uma carcaça forrada
d'um veludo preto, todo bordado, colorido
de vidrilhos, canutilhos, miçangas e fitas.
É uma fantasia que acende a noite.
012. FADE OUT GANZÁ
013. LOC Primeiro fragmento: "O Guarnecê"
014. ANNA Meia-noite, boi-sol vem dançar.
015. TEC: MÚSICA - 2:56
016. ANNA (OVER) No folguedo, os pés de homem não são mais
que pés de boi. Pé duro, casco chão, tão duro e quebrante
que só terra-terra, pé cavado, pé carregante
de um corpo ébrio, enervado, em êxtase
porque a bebida corre solta e o diabo
parece envolver-se dos homens.
017. SOBE MÚSICA - NO FINAL : APITO
018. LOC "O Boi e as Paragens do Bumba"
019. BADALOS - VAI A BG
020. RODRIGO Em sua função religiosa, a representação do Boi relembra
outros cultos que vem desde o nascimento do Menino Cristo,
para juntar-se a vida pastoril do Nordeste
e à civilização do couro.
021. ANNA Vaqueiros inspirados em Deus.
022. RODRIGO Cantando e dançando em louvor a São João.
023. BADALOS - FADE OUT
024. LOC "Salva", segundo fragmento.
O Bumba-meu-Boi, no Sotaque do Pindaré
025. TEC: MÚSICA - 1:31
026. RODRIGO (OVER) A morte e ressurreição do Boi é o motivo central
no enredo desta dança dramática. Na hora de guarnecê,
os homens tomam em si as principais figuras.
É um instante de preparo, de última arrumação.
027. SOBE MÚSICA - NO FINAL : APITO
028. ANNA ((ECO))O Amo.
029. RODRIGODono das terras e dos bois, verdadeiro dono
de quase todas as coisas, o senhor branco.
030. ANNA ((ECO))Pai Francisco.
031. RODRIGOO negro Chico, que serve ao amo,
que irá furtar o boi estimado.
032. ANNA ((ECO))Catirina.
033. RODRIGOA mulher, prenhe do negro,
que deseja comer um bocada da língua do boi.
034. ANNA ((ECO))O Pagé.
035. RODRIGOAquele que opera o milagre, fazendo viver
o boi depois de morto.
036. ANNA ((ECO))Ressurreição.
037. RODRIGOO conflito: na integração das raças.
038. ANNA ((ECO))O branco, mais o negro, mais o índio.
039. LOC Terceiro fragmento: "Levantar do Boi",
no Sotaque do Pindaré - Maranhão
040. TEC: MÚSICA - 2:33
041. ANNA (OVER) Ai, tem tempo: o boi sem língua, sem vida, procurado.
Mas tem outras mortes, o boi.
Longe dos iguais, cercado, quando boi
cai joelhos, cai lágrimas:
lava a alma do vaqueiro, lava a despedida muda,
mugida entre o homem e o animal.
042. SOBE MÚSICA - NO FINAL : APITO
043. LOC "O Boi e as Paragens do Bumba"
044. GANZÁ - VAI A BG
       ATT. MIX COM BUMBA NO BG DA FALA
045. RODRIGO O Bumba-meu-Boi é antes de tudo uma festa
para quem assiste e para quem participa.
Os vaqueiros aparecem neste folguedo,
em suas calças de cetim azul ou vermelho ou amarelo,
colete de veludo bordado e com grandes chapéus
de abas com fitas e mais fitas. Outros brincantes comparecem
travestidos de outras pessoas, de animais ou seres mágicos.
Acompanhados por um conjunto instrumental
de bumbas, ganzás e matracas, os brincantes
carregam consigo bexigas de boi, cheias de ar,
a dar uns nos outros e, por vezes, no público.
046. CORTA BUMBA
047. LOC Quarto fragmento do Bumba-meu-Boi: "Estrela na Testa".
048. TEC: MÚSICA - 2:10
049. ANNA (OVER) Que todo boi, toda estrela, tem sua própria sorte.
Nascer estrela, livre, nascer boi, livre, bravio, barbatão
apenas barrado pela mão do vaqueiro,
ser do espaço cercado.
O retalho redondo de um mundo perto da lâmina,
do aço em seu pescoço. O veio de sangue escorre,
escorre lágrima, lamento, largueza de vida.
É o boi que se paga, se apaga
e as estrelas... mortas.
050. RODRIGO (OVER) Até volte a brilhar...
051. SOBE MÚSICA - NO FINAL : APITO
052. LOC O Bumba-meu-Boi, no Sotaque do Pindaré
Último fragmento: "Urrou do Boi"
053. TEC: MÚSICA - 1:13
054. RODRIGO (OVER) No folguedo do Boi, já ressurrecto, a cantoria
é tirada até os primeiros sinais de claridade.
No entanto, não há o menor sinal de cansaço:
público e brincantes ainda dançam
mantidos pela cachaça. Das brigas
que aconteceram na função, os homens esquecem.
Talvez levem para casa algum dinheiro
pois cada ator teve o seu tempo para fazer sua coleta,
com mãos estendidas, o chapéu estirado,
a piada bem contada. Resta partir,
despedir-se da alegria do dança-Boi.

Promessas de um Novo Boi só para o ano seguinte.
055. ANNA (OVER) Com a fantasia rasgada, o homem veste a realidade.
056. SOBE MÚSICA - NO FINAL : APITO
057. LOC "O Boi e as Paragens do Bumba"
058. ABOIO - VAI A BG
059. ANNA Retira-te boi
que já são hora:
Que é de madrugada,
o romper da aurora.
060. LOC Realização: Cultura FM de São Paulo,
emissora da Fundação Padre Anchieta
- Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativas
- Brasil
061. FADE OUT : ABOIO - DEPOIS DE UM MUGIDO




O Boi e as Paragens do Bumba © 1993 Peter O'Sagae

Mídia:Rádio Cultura FM Por onde passa o Boi?

Rádio

&IDéiAs
Locução: Alfredo Alves
Vozes Convidadas: Anna Maria Kieffer
e Rodrigo Santiago
Gravação e montagens: Emiliano Rolim
e Jonas Bicev
Roteiro, produção e direção: Peter O'Sagae
Supervisão: Thaís de Almeida Dias