
Coro Cabeludo é o sugestivo nome de um coral infantil de Curitiba,
coordenado por Cristina Lemos, Solange Gomes e Itaércio Rocha. Sempre em busca de um
compromisso sério com a música e a educação, o Coro Cabeludo traz em seu repertório
compositores clássicos e populares, revelando às crianças muitos nomes esquecidos (ou
escondidos) pela mídia comercial. No primeiro CD do Coro Cabeludo, podemos conferir
a alegria e o envolvimento de um trabalho maduro, com 10 anos de bagagem (de boa bagagem musical!).
Abrindo o disco, uma algazarra de vozes, um clima mais-que-propício para fazer passar
o General da Banda. Esse samba de José Alcides,
Raimundo Sátiro de Melo e Tancredo Silva, gravado originalmente em 1949 por Blecaute,
soa aos ouvidos como uma deliciosa homenagem ao sambista carioca que, sempre vestido
em muitas cores, dragonas e lantejoulas, dava início aos carnavais, abrindo os desfiles,
além de comandar as duas torcidas em dias de Fla-Flu no Maracanã.
Também ouvimos, dois sambas baianos de Dorival Caymmi, em uma única faixa:
Maricotinha, recentemente gravada por Maria Bethânia em seu disco com esse mesmo
título, e Maracangalha, lançada em agosto de 1956. De Milton Nascimento e
Márcio Borges, encontramos Benke, interpretada com
extrema sensibilidade nas vozes e no arranjo assinado por Vicente Ribeiro. Somente esses
quatro exemplos nos dão pistas sobre a sintonia do grupo Coro Cabeludo com o que há de
melhor na MPB, além de evidenciar que a escuta de canções para crianças, por crianças,
nem sempre é condicionada por um padrão da moda. Ao contrário, o universo lúdico exige
qualidade e pode apropriar-se de qualquer repertório.
Na linha das canções produzidas 'especialmente' para o público infantil, o Coro
Cabeludo não faz por menos e foi buscar Arnaldo Antunes e Paulo Tatit, Sandra Peres e
Edith Derdyk, nas faixas Pipoca e Negro Céu, respectivamente. Autores e
títulos, pode-se dizer, bem conhecidos pelas crianças através do selo Palavra Cantada.
E a eterna Bia Bedran é outra presença no disco, no samba de seis mortos esticados e
cinco vivos passeando, o violão João Sebastião.
Cancionetistas curitibanos respondem pelo tom mais romântico e calmo do álbum. Entre
eles, encontramos Lydio Roberto com duas canções: Sabiá,
de pouso e cafuné suaves, e Ruas e Flores, com visões do inverno, da cidade e a
noite, de ventos e amores, bocas pintadas e poetas gentis, do fogo nos abraços; Rosy
Greca, autora de sereias, duendes, os sacis e as fadas da Terra do Sempre,
participando da gravação; Renato e Roberto Oliveira, com Margarida, uma cantilena
ecológica de bem-me-quer e mal-me-quer; e ainda Cristina Lemos e Etel Frota, no belo
acalanto Yonah.
Completando o variado painel sonoro, uma quase-embolada de três canções do folclore brasileiro:
Sinhá Marreca,
Fui Passar na Ponte e
Jacaré Poiô, com a participação do
grupo Mundaréu, no arranjo, nos vocais e na percussão, em festa.
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Peter O'SagaeO Caracol do Ouvido |
janeiro/2003
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