Vem ver, ouvir e viver o Mundaréu
Cortejo natalino Mundaréu © 2005
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Marcha de Nossa Senhora do Rosário
Boa noite
Na frente desta igreja
Viva o sol, viva a lua
Bendito São José
Pai Nosso
Róseo menino
Meu Jesus
Boa noite
Meu São José
A lua nasce no Egito
Calixbento
Senhor Menino, dão dão dão duê
Despedida
Entrada do Divino
Guarnicê - uma singelaopereta popular © 2000
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Co'a estrela da fé,
fita, felicidade e folia
Imagine você um presépio ambulante levado em grandes tabuleiros equilibrados
na cabeça como se fossem abas abertas de chapéus...
Então, abra portas e janelas dos olhos e do coração para celebrar em festa
o Nascimento de Jesus Menino: óia que vêm lá os artistas brincantes!
E cantam ladainha pelas ladeiras, testemunham em terreiro,
pipocam o pandeiro de palmas, e dançam assim: cores de saia, rodas
de pano, forma de flores, brilho de estrelas, fitas encarnadas e azuis.
Viva o sol e viva a lua: o Mundaréu vem chegando intenso de guia-luz.
Como já aconteceu com outras apresentações do MUNDARÉU,
DaniElla Gramani, Dayse Santiago, Itaércio Rocha, Melina Mulazani e Thayana Barbosa –
a atual formação do grupo – junto do acordeonista gaúcho Manchinha, em participação
especial, transformam em CD o espetáculo Cortejo Natalino.
Co'a rica bagagem de canções colhidas, em mais de oito anos d'estrada,
este é mais um trabalho que resgata diferentes manifestações da cultura popular.
Profundamente investido pela religiosidade que se espalha por todo o país,
o grupo reúne as canções ingênuas dos lugares separados pela geografia,
mas unidos em música, fé e poesia. Assim é que a comunhão partilha do que é di-verso.
E bem faz registrar o encarte do álbum: "É no Natal que o povo brasileiro
realiza sua maior experiência de solidariedade. Além de trocar alimento e presentes,
trocam também alegria, cores, movimentos e seus sons que trazidos de longínquas origens
permanecem entre nós".
Neste cortejo natalino, o presente que recebemos é a descoberta de quão sofisticada
pode ser a criação popular. O espetáculo sonoro abre-se com feitio de procissão,
chamamento de bate-às-portas do terno do Congo de Minas Gerais. Cortejo chegando,
já chegado, o MUNDARÉU estende o boa-noite do convite até dia dos santos-reis:
vamos tomá café com bolo, ouvir-brincar um reisado do Piauí. Geme a sanfona,
repica o triângulo para um Boi de Reis do Rio Grande do Norte. A alma festiva
se empolga, Na frente desta igreja imaginária... Oiá aí a casa de tanta oração
e louvação ao Santíssimo é mesmo qualquer chão de alegria. Animou-se?
O MUNDARÉU tem marcado sua presença por um toque forte da percussão e uma
interpretação vocal impecável, reconstituindo afinações de acento popular.
Estremece a rabeca num puxado cumprido e Melina Mulazani entoa voz feito
carro-de-bois: afinal, quem trabalha Deus ajuda. É o cavalo-marinho
da Paraíba celebrando a Noite de Natal. E aí então, no singelo espetáculo, é hora de
apresentar o presépio para o distinto público. Itaércio Rocha ergue o coro do bendito
nos passos de José e de Maria, que tanto andavam de noite, como andavam de dia,
rumo a Belém. A euforia se acautela nessa canção solene-lenta mineira, os
músicos-brincantes baixam os tabuleiros, com figuras de papelão e machê colorido,
para todos olhar de perto. Presépio montado, mãos juntas ao peito, o quinteto
ajoelhado e DaniElla Gramani canta a oração do Pai-Nosso aboiado por um grupo de
samba sergipano. Participamos do coro: "Sou eu, sou eu, sou eu amor de Mamãe."
Palmas finalizam o rito religioso e musical. E soa doce e soa meiga a cançoneta
curitibana Róseo menino, recolha da voz de avó que vela sonhos.
O Cortejo Natalino prossegue, se apruma, se arriba inteiro para animar
ritmos e balanços. Da Paraíba às Alagoas, falo sem medo de errar, porque a contra-mestra
é bacana, e faz as baianas formosas baianar. Sacodem a cadeira, dão novo Boa Noite, cantando
assim: "É o beija-flor, que a flor vai beijar." E as saias se levantam na roda,
são duas bandeiras que clareiam luas nos pastoris de Pernambuco. Escolha o cordão
que você vai seguir, encarnado ou azul, quem'que vai ganhar? Toca o toque de arraial,
o quaquaquá das quermesses, quase quadrilha, algo que você já ouviu e vai participar.
Com pandeiros de prata, hora de dançar de um coco tirado no improviso saltado de bom.
E olará, viagem abençoada: vai Paraná,
vai Minas, vai Maranhão. Nos lençóis de ouro fino, um calixbento abençoa.
Nas Gerais, acordo e cuidado do dão dão duê da procissão:
Quem sair com esse menino / Ora sai com ele devagarinho / Pra livra do tropicão /
Olha os buraco no terreiro ;-)
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foto : Roberto Retenbach

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Bate a despedida. Adeus, bois, ternos, adeus! Cheganças, adeus!
Marujadas, congadas e congos, adeus! Guerreiros, reisados, tantos outros, adeus!
Do qu'era doce, arregalou-se que o espetáculo já se foi-se. Finzinho começando.
E surgem as caixeiras viandando vivas ao Divino...
"A cada dia que passa, o Mundaréu
descobre o quão sofisticada é a estética de nosso povo. O Brasil com suas festas
nos revela uma forma de ser, uma leitura de mundo, que vem sendo construída há séculos."
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Peter O'SagaeO Caracol do Ouvido |
dezembro/2005
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