Vem ver, ouvir e viver o Mundaréu


Cortejo natalino
Mundaréu © 2005


Marcha de
Nossa Senhora do Rosário
Boa noite
Na frente desta igreja
Viva o sol, viva a lua
Bendito São José
Pai Nosso
Róseo menino
Meu Jesus
Boa noite
Meu São José
A lua nasce no Egito
Calixbento
Senhor Menino,
dão dão dão duê
Despedida
Entrada do Divino


Embala eu
Mundaréu © 2004




Guarnicê - uma singela
opereta popular © 2000



Co'a estrela da fé,
fita, felicidade e folia


Imagine você um presépio ambulante levado em grandes tabuleiros equilibrados na cabeça como se fossem abas abertas de chapéus... Então, abra portas e janelas dos olhos e do coração para celebrar em festa o Nascimento de Jesus Menino: óia que vêm lá os artistas brincantes! E cantam ladainha pelas ladeiras, testemunham em terreiro, pipocam o pandeiro de palmas, e dançam assim: cores de saia, rodas de pano, forma de flores, brilho de estrelas, fitas encarnadas e azuis. Viva o sol e viva a lua: o Mundaréu vem chegando intenso de guia-luz.

Como já aconteceu com outras apresentações do MUNDARÉU, DaniElla Gramani, Dayse Santiago, Itaércio Rocha, Melina Mulazani e Thayana Barbosa – a atual formação do grupo – junto do acordeonista gaúcho Manchinha, em participação especial, transformam em CD o espetáculo Cortejo Natalino. Co'a rica bagagem de canções colhidas, em mais de oito anos d'estrada, este é mais um trabalho que resgata diferentes manifestações da cultura popular. Profundamente investido pela religiosidade que se espalha por todo o país, o grupo reúne as canções ingênuas dos lugares separados pela geografia, mas unidos em música, fé e poesia. Assim é que a comunhão partilha do que é di-verso. E bem faz registrar o encarte do álbum: "É no Natal que o povo brasileiro realiza sua maior experiência de solidariedade. Além de trocar alimento e presentes, trocam também alegria, cores, movimentos e seus sons que trazidos de longínquas origens permanecem entre nós".

Neste cortejo natalino, o presente que recebemos é a descoberta de quão sofisticada pode ser a criação popular. O espetáculo sonoro abre-se com feitio de procissão, chamamento de bate-às-portas do terno do Congo de Minas Gerais. Cortejo chegando, já chegado, o MUNDARÉU estende o boa-noite do convite até dia dos santos-reis: vamos tomá café com bolo, ouvir-brincar um reisado do Piauí. Geme a sanfona, repica o triângulo para um Boi de Reis do Rio Grande do Norte. A alma festiva se empolga, Na frente desta igreja imaginária... Oiá aí a casa de tanta oração e louvação ao Santíssimo é mesmo qualquer chão de alegria. Animou-se?

O MUNDARÉU tem marcado sua presença por um toque forte da percussão e uma interpretação vocal impecável, reconstituindo afinações de acento popular. Estremece a rabeca num puxado cumprido e Melina Mulazani entoa voz feito carro-de-bois: afinal, quem trabalha Deus ajuda. É o cavalo-marinho da Paraíba celebrando a Noite de Natal. E aí então, no singelo espetáculo, é hora de apresentar o presépio para o distinto público. Itaércio Rocha ergue o coro do bendito nos passos de José e de Maria, que tanto andavam de noite, como andavam de dia, rumo a Belém. A euforia se acautela nessa canção solene-lenta mineira, os músicos-brincantes baixam os tabuleiros, com figuras de papelão e machê colorido, para todos olhar de perto. Presépio montado, mãos juntas ao peito, o quinteto ajoelhado e DaniElla Gramani canta a oração do Pai-Nosso aboiado por um grupo de samba sergipano. Participamos do coro: "Sou eu, sou eu, sou eu amor de Mamãe." Palmas finalizam o rito religioso e musical. E soa doce e soa meiga a cançoneta curitibana Róseo menino, recolha da voz de avó que vela sonhos.

O Cortejo Natalino prossegue, se apruma, se arriba inteiro para animar ritmos e balanços. Da Paraíba às Alagoas, falo sem medo de errar, porque a contra-mestra é bacana, e faz as baianas formosas baianar. Sacodem a cadeira, dão novo Boa Noite, cantando assim: "É o beija-flor, que a flor vai beijar." E as saias se levantam na roda, são duas bandeiras que clareiam luas nos pastoris de Pernambuco. Escolha o cordão que você vai seguir, encarnado ou azul, quem'que vai ganhar? Toca o toque de arraial, o quaquaquá das quermesses, quase quadrilha, algo que você já ouviu e vai participar. Com pandeiros de prata, hora de dançar de um coco tirado no improviso saltado de bom. E olará, viagem abençoada: vai Paraná, vai Minas, vai Maranhão. Nos lençóis de ouro fino, um calixbento abençoa. Nas Gerais, acordo e cuidado do dão dão duê da procissão: Quem sair com esse menino / Ora sai com ele devagarinho / Pra livra do tropicão / Olha os buraco no terreiro ;-)
 
foto : Roberto Retenbach


Bate a despedida. Adeus, bois, ternos, adeus! Cheganças, adeus! Marujadas, congadas e congos, adeus! Guerreiros, reisados, tantos outros, adeus! Do qu'era doce, arregalou-se que o espetáculo já se foi-se. Finzinho começando.

E surgem as caixeiras viandando vivas ao Divino... "A cada dia que passa, o Mundaréu descobre o quão sofisticada é a estética de nosso povo. O Brasil com suas festas nos revela uma forma de ser, uma leitura de mundo, que vem sendo construída há séculos."


Peter O'Sagae
O Caracol do Ouvido
dezembro/2005

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