Salve essa casa,
nobre morada.
Nova jornada
vamos começar.

Nossa festa vai principiar.
Com rabecas, bombos e violas
hoje aqui viemos festejar,
render graças à vida nessa hora.

Abram as portas
para o meu Reisado.
Cantos e loas
vamos entoar.

 Fonosfera: céu forrado de canções

Tarsila do Amaral - O Mamoeiro (1925)

"Em um continente com alto índice de analfabetismo, a canção pode ser lida com os ouvidos. Soma-se a isto o progresso tecnológico em matéria de receptores de rádio portáteis e sua crescente popularização, que multiplica esse efeito como sementes lançadas à terra. Isso nos leva a indagar o que esteja sendo semeado para obter que frutos."

Daniel Viglietti


Vivemos um tempo nada ingênuo, parafraseando Heloísa Bauab (1989), momento civilizatório de mudanças radicais nas formas de aquisição de cultura. Vivemos um tempo marcado pelos signos da tecnologia, entre os quais tentamos sempre destacar a importância da Palavra Elétrica, evidência de uma segunda fase para a Oralidade na História humana: Toda e qualquer Tradição resulta em Transmissão.
        O que acontece com a matriz folclórica é um redimensionamento em novas esferas geográficas. Amparada pelo estafe eletrônico, sucede a presença de microfones e alto-falantes amplificando a potência da voz, em praças ou palcos improvisados. Também se processa a franquia de cantores populares em teatros e na mídia do rádio e da televisão, em todos os tipos de estúdios de gravação, bem como da prensagem de seus discos. Paralelamente, o intercâmbio cultural estabelecido, entre a tradição oral e as técnicas de sonorização, fomenta o aperfeiçoamento das técnicas vocais e de instrumento, acabando por modificar, ou semantizar, a linguagem musical e o texto folclórico. E essa especialização do fazer artístico vai de frente a um problema delicado: até que ponto a natureza espontânea do texto de criação popular não se compromete com os modelos eletrônicos de difusão?
        Se, influenciado é, influenciador também será. Com certeza, a despeito do que escreve Rossini Tavares de Lima (1972: 71):

Considera-se fundamental a realização de festivais de grupos folclóricos, espontaneamente criados e aceitos na coletividade. Mas deve-se tomar cuidado com a inclusão nesses festivais de violeiros de rádio, que já se incluem na música popular ou popularesca, música comercial ou de consumo. Podem ser muito bons, mas não são folclore. 1

        Ponderando a respeito das manifestações folclóricas de seu país, o especialista em teoria e história da música "soviética", Mikhail Evgenievitch Tarakanov (Unesco, 1986), é quem melhor descreve o duplo sentido deste vetor cultural:

Como conseqüência deste poderoso movimento de apropriação do folclore, a criação popular tende a perder a sua espontaneidade e continuidade formal para se transformar num objeto de aprendizagem e de ensino. Felizmente também surge a tendência inversa, que busca conservar a autenticidade, em especial por intermédio da montagem de espetáculos fiéis sob todos os aspectos ao espírito das festas populares. (...) Por fim, surgem novos gêneros que mergulham suas raízes na tradição oral (...) As obras-primas da arte folclórica atingem um público cada vez maior (...) e o familiarizam com os diversos estilos nacionais, favorecendo o contato entre as cento e tantas nações que compõem nosso país.

        Obviamente, não é mais a obra folclórica, poema ou canção, no sentido de extremo purismo, que se torna o texto mais divulgado. Quiçá, ao exemplar comunicado faltam a motivação original, o sentimento e o imaginário do espaço-tempo fecundante, e mesmo sua funcionalidade: torna-se espetáculo, produto de um novo consumo cultural. São e serão sempre releituras ou apropriações de formas, espaços móbeis que, em seus resíduos sonoros e tex-tuais, estimulam a convivência salutar entre a modernidade e os modos antigos.
        Trata-se igualmente de um conflito de vozes semantizando contradições e afinidades, moldando uma rede sonora de comunicação que evade os limites do espaço físico, por vezes intransponíveis, sem a mediação dos meios eletrônicos. Uma "fonosfera" que abarca regiões, estreita laços da solidariedade social.
        Fazendo alusão a um fio histórico, "que se estende desde os sons da harpa indígena até a fita cassete", Daniel Viglietti (Unesco, 1986) bem ilustra e explica o entrelaçamento cultural:

Quando um camponês equatoriano, no alto de uma serra, escuta em seu rádio transistorizado Víctor Jara cantando Plegaria de un labrador, mesmo sem saber do que se trata, nesse momento e nesse lugar, está ouvindo um produto folclórico. Existe, pois, um conjunto de fenômenos similares que for-mam uma espécie de "folclore subjetivo", às vezes efêmero, que aguarda inclusão nas classificações dos especialistas. E existe também esse outro conjunto anônimo de composições que não deixam registro algum, exceto na memória popular. Resgatar essa memória, recapturar a experiência de ouvir esses sons, é mais uma tarefa que reclama novas gerações de pesquisadores, em meio a uma persis-tente falta de apoio dos governos nacionais e dos organismos internacionais.

        Podemos inferir que, na qualidade de um "folclore subjetivo", o autor faça menção à modalidade de escuta que envolve a nova transmissão do fazer folclórico. Esvai-se o momento único do encontro tradição-situação da performance, compreendido na relação direta da boca ao ouvido. Não raro, o número de repetições banaliza o pouco que há da dimensão ritualística... a empatia da canção, no caso, ficaria por conta de seus traços musicais e textuais, parcelamento da experiência de "ouvir esses sons" in locus da enunciação primeira.
        Todavia, corre-se risco maior frente ao esquecimento, ao descaso e descuido no interesse de registrar tais manifestações e mesmo difundi-las através dos meios técnicos de reprodução sonora e/ou audiovisuais. Enfim, a questão parece encerrar uma verdade: a de nos contentarmos em registrar todos os resíduos possíveis da obra anônima do povo, não importando o recurso utilizado: papel, partitura e letra; equipamento multimídia, gravadores digitalizado-res, etc. Assim procedendo, saberemos muito mais de pouco-algo sobre o Folclore de todos os povos e países, através de fotografias e Compact Discs, que na simples leituras de notas de nossos antigos viajantes.
        No âmbito da cultura mundial, vale lembrar as compilações realizadas por inúmeras gravadoras independentes e comerciais, movidas pelo espírito do fenômeno Nova Era. No filão deste mercado, ao lado de músicas eletrônicas, podem ser encontrados variados registros de caráter etnográfico e folclórico. Ouvir essas produções é sobrevoar os limites geográficos e temporais, muito embora tenhamos em mente a ressalva de Paul Zumthor (1993: 221):

O som transmitido pelo disco atenua bastante o efeito da distância temporal e do abafamento sensorial. Entretanto, ele não passa de ilusão de presença; e, se procedemos a uma execução em salão, com cantor e músicos, é sobre os elementos não textuais da performance que se concentram as equivocidades.

        No caso do Brasil, encontraremos empreendimentos que ora se confundem com o movimento da MPB, ora buscam caminhos mais alternativos. Por uma questão de maior proximidade, faz-se possível uma delimitação prévia dos fonogramas disponíveis, sem a preocupação de estabelecer rígidos limites 2:

  • CANÇÕES FOLCLÓRICAS propriamente ditas, passadas de geração para geração, na mais fiel relação da boca ao ouvido, muitas vezes reinterpretadas por cantores da MPB ou encontradas em álbuns dedicados às crianças, entre cirandas e canções de ninar.

  • CANÇÃO INSPIRADA EM TEMAS FOLCLÓRICOS, composta tanto entre os músicos eruditos como os artistas da música popular; com o tempo, alguns exemplares acabam sendo assimilados de tal forme que se confudem com as canções verdadeiramente tradicionais.

  • MÚSICA MOTIVADA POR RITMOS E DANÇAS REGIONAIS, onde é possível localizar o maior número de exemplos, como o som regionais e/ou regionalizados pela mídia e demais canções que possam se encaixar nas categorias do frevo, baião, maxixe, forró, samba, gafieira, partido-alto, toada, moda-de-viola, etc., sendo importante lembrar que atualmente muitas dessas produções são comercializadas no exterior sob o rótulo de world music. Inclui-se também alguns gêneros rurais urbanizados.

        Merece especial destaque e atenção, nesta visada das canções folclóricas propriamente ditas, os trabalhos realizados pela gravadora MARCUS PEREIRA, que no início do anos 70, concentrou esforços e talento em coleções dedicadas ao registro do original folclórico, bem como tratou de novas interpretações para a cantiga brasileira tradicional. 3 Tamanha eletrificação do cancioneiro popular, com o grande aproveitamento de seus ritmos e temas, deve-se em especial a uma recente urbanização do Brasil, além de um mero interesse cultural de preservar origens e raízes. Boa porcentagem do povo vivente nas cidades não chega a ser a terceira geração exclusivamente urbana. Os laços afetivos ainda permanecem, com sua força, fazendo presente as tradições, quer por parte do público, quer pelos artistas.
        Nesse sentido, o Folclore antes de figurar como peça de museu ou objeto apenas de estudos acadêmicos, é a movência de sua própria linguagem, adaptando-se aos mais diversos cenários. Redimensionado pela forma de transmissão, o texto original que persiste não é apenas o sinal de Resistência frente a uma cultura alienante dos "meios de comunicação de massa" como querem alguns especialistas. Antes e mais, sinal de Convivência... novamente, comparece Mikhail Tarakanov (Unesco, 1986):

Não há mais nenhum local de atividade humana do qual a música possa ser excluída a priori. Pode-se falar de uma conquista absoluta pela música no mundo em que vivemos, de uma verdadeira "fonosfera" envolvendo o planeta. E não é mais o momento de discutir sua validade, mas tentar equilibrá-la.

        Pois bem: envolvidos na malha desta fonosfera, os fios das estórias populares e suas canções desprendem-se da geografia regional e alcançam espaços novos, elétricos e virtuais: a Tradição convertida em Transmissão, em especial de Rádio.



PETER O'SAGAE
Roteirista, autor de programas de Rádio
e pesquisador das Tradições Orais




NOTA 1
(Ironia ou não, as compositoras Inezita Barroso, Ely Camargo, Thaís de Almeida Dias, entre suas alunas de maior destaque, mesmo Renato Teixeira, são pessoas ligadas diretamente às mídias eletrônicas, gravando programas de rádio e televisão, discos, apresentando-se como músicos, folcloristas e divulgadores da autêntica cultura de raiz.) § voltar

NOTA 2
Operamos essa trimembração do acervo musical brasileiro pois, com todo ele, realizamos nossas pesquisas que permitiram a confecção de No Balanço do Balaio - a memória viva de nossa gente e programas afins que destacaram nossa canção tradicional e de outros países. § voltar

NOTA 3
As séries Música Popular do... Norte, Nordeste, Sul, Centro-oeste e Sudeste, chegaram a completar cerca de quatorze álbuns. Em sua concepção, o projeto contou com nomes importantes, entre coordenadores, consultores e pesquisadores: Aluízio Falcão, Oneyda Alvarenga, Carolina de Andrade, Paulo Vanzolini, Radamés Gnatalli, José de Ribamar Viana (Papete), Fernando Brandt, Eli Camargo, Martinho da Vila, Theo de Barros, Américo Azevedo Neto, etc., etc. E, ao lado de vozes reconhecidamente anônimas do grande público (como, Nhô Serra, "seo" Chico, Zé Igarapé, Tó Teixeira) e de grupos de arte-popular (Catireiros de Nova Odessa, Terno Verde de Congada, Companhia de Moçambique), nomes de destacados instrumentistas e intérpretes da MPB, entre tantos, Nara Leão, José Tobias, Adauto Santos, Dona Ivone Lara, Renato Teixeira, Jane Duboc, Papete, Carmen Costa, Clementina de Jesus, ... § voltar


Referências Bibliográficas
BAUAB, Heloísa.  Evolução da ficção radiofônica.  Folha de São Paulo,  São Paulo, 10 de out. 1989.  Ilustrada, n.p. TARAKANOV, Mikhail E.  Folclore e fonosfera.  O CORREIO DA UNESCO, ed. brasileira.  São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, ano 14 (6), jun. 1986. TAVARES DE LIMA, Rossini.  Abecê do folclore.  5.ed.  São Paulo, Ricordi, 1972.  p. 71. VIGLIETTI, Daniel.  América Latina: a nueva canción.  O CORREIO DA UNESCO, ed. brasileira.  São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, ano 14 (6), jun. 1986. ZUMTHOR, Paul.  A letra e a voz: a "literatura" medieval.  trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira.  São Paulo, Companhia das Letras, 1993.  p. 221.


SAGAE, Peter O'. Céu Forrado: Fonosfera. In: O Fio da estória na meada do som: do contato-texto ao jogo-rádio. dissertação de mestrado. São Paulo, Faculdade de Letras-USP, 1998. pp. 60-4.