Modest Mussorgsky
1839 - 1881

 Modest Mussorgsky
Mussorgsky, retratado por Ilya Repin (1881), Galeria Gosudarstvennaya Tretyakovskaya de Moscow

Modest Petrovich Mussorgsky nasceu no dia 21 de março de 1839, em Karevo, filho de fazen-deiros. Enquanto criança, ouvia as canções populares de sua terra e logo sentiu-se inspirado para improvisar ao piano, antes mesmo que sua mãe decidisse dar-lhe as primeiras lições...

Além das atividades escolares, Modest teve aulas com Anton Herke, desenvolvendo consi-deráveis habilidades de performer e improvisa-dor. Deste modo, não tardaria por revelar-se um menino prodígio e, aos nove anos, interpretou os solos de um concerto de John Field. No futuro, seria reconhecido como o mais criativo e prolífico compositor de óperas, mesmo que a maioria delas permanecesse inacabada...

Músico e Militar

Em 1852, Modest ingressou na Academia Militar de São Petersburgo (Escola de Cadetes da Guarda Imperial) e, em 1856, foi indicado para o Regimento da Guarda Preobrazhensky. Neste período, tentou escrever uma ópera -- baseando-se na primeira novela publicada por Victor Hugo, «Hans de Islândia» -- embora lhe faltassem os fundamentos da teoria musical. Durante o inverno de 1856, aconteceu o memorável

Modest Mussorgsky
Membro da Guarda Imperial
encontro com Mily Balakirev e César Cui. Decorreu assim, no ano seguinte, seu pedido de excedência a fim de continuar os estudos musi-cais. Ao completar 19 anos, sendo Mussorgsky um ardente idealista, consignou-se à completa missão de servir sua pátria: fosse pelas armas, fosse pela música...

Integrando o GRUPO dos CINCO (juntamente com Balakirev, Cui, Borodin e Rimsky-Korsakov), Mussorgsky compôs várias canções e peças para piano, trocando os parcos conhecimentos que possuía com os amigos sob a orientação de Balakirev -- o único que realmente vinha de uma sólida formação musical, embora fosse um compositor mediano.

Nos primeiros anos da década de 1860, começou a escrever duas adaptações para a cena lírica: «Salambo», inspirado em Gustave Flauber, e «O Casamento», a partir de Nikolai Gógol. Em 1868, foi a vez de um drama histórico escrito por Pushkin: «Boris Godunov», a única ópera concluída por seu gênio inconstante, embora essa obra prima tenha sofrido pressões e sucessivas revisões durante os seis anos que anteciparam a estréia...

Petr Glubok
O baixo Petr Glubok faz o papel do monge e cronista Pimen, na ópera Boris Godunov - The Bolshoi Theater, Ballet and Opera

A Grande Ópera

«Boris Godunov» é uma ópera das mais comoventes; envolve traição, assassinato, luta pelo poder, amor e atos heróicos. No Kobbé (O Livro Completo da Ópera), está registrado:

"O enredo reproduz um dos episódios mais curiosos da história da Rússia, na passagem do século XVI para o XVII. Boris Godunov, cunhado e primeiro-ministro do czar Fiodor, filho de Ivan, mandou matar o jovem Dmitri, meio irmão do czar e seu herdeiro. À morte de Fiodor, Boris, que cometeu o crime com o objetivo de tomar o poder, é aclamado pelo povo e ascende ao trono. Nesta mesma época, no entanto, um jovem monge chamado Grigory foge de seu mosteiro para a Polônia, onde se passa pelo czarevich Dmitri, dado como morto. O governo polonês recebe-o cordialmente, tanto mais por perceber as vantagens que pode extrair da situação. Logo o falso Dmitri, que se casou com a filha do voivoda de Sandomir, põe-se à frente do exército polônes e com ele marcha contra a Rússia. Chega então a notícia da morte de Boris, e o falso Dmitri, prevalecendo-se das circunstâncias, usurpa por sua vez o poder."

Porém, Mussorgsky recebeu muitas críticas por parte dos colegas e de outros "doutores", incapazes de compreender sua titânica força criadora e a originalidade de seu universo sonoro. No mesmo ano de sua estréia, 1874, apesar de sentir-se vulnerável e aniquilado, começou os trabalhos para uma nova ópera histórica, «Khovantchina», e também a beber sem controle.

O álcool o embrutecia... mas Mussorgsky logrou compor ainda os «Quadros de uma Exposição» (1874), seguidos das visionárias, quiçá premonitórias, «Canções e Danças de Morte» (1875-77). Também esboçou mais uma ópera: em 1880, deu asas para a imaginação na fulgurante «A Feria de Sorotchinsky» -- que ficaria a cargo de César Cui os cuidados com a primeira edição, vista em cena somente em 1917... Mussorgsky havia lido um interessante episódio de Gógol, o conto «Noites numa fazenda perto de Dekanka», onde aparecia uma estranha estória sobre a manga desaparecida de uma camisa vermelha do diabo empenhada a uma campesina para lavar e passar...



Em Fantasia, dos estúdios Disney,
o cenário de sombras e as asas do
demônio Chernabog.

Nesta ópera, está incluído o famoso poema sinfônico «Uma Noite sobre o Monte Calvo», que ele havia escrito em 1867, justamente na noite mais quente e comprida do ano, que é a Véspera de São João, marcando a entrada do verão no hemisfério norte. Essa música, entre as obras mais conhecidas de Mussorgsky, está no filme feito por Walt Disney em 1941: «Fantasia».

Com todos esses trababalhos na cabeça, de vez em quando, Mussorgsky partia em alguma tournée como pianista e acompanhante, mas já se encontrava em total dependência da bebida... Presa fácil do delirium tremens e da epilepsia, sua natureza desmoronava-se lentamente.

Malogrado em toda sua vida, mas sem dúvida, o mais original dos compositores russos. Obras do porte de um «Boris Godunov» ou «Uma Noite sobre o Monte Calvo» não têm par. Seu modo de viver desesperado, a auto-destruição, o fez deixar muitas peças musicais sem conclusão: contraste desolador entre um gênio de categoria sobre-humana e uma colheita realmente exígua, como sentenciam os pesquisadores de sua vida e obra. Como poucos, ele era um homem que sabia ser íntimo e popular com sua música.

Mussorgsky morreu no dia 28 de março de 1881, na cidade de São Petersburgo. Tinha apenas 42 anos e, com ele, também acabaria o poderoso GRUPO DOS CINCO.

Peter O'Sagae
O Caracol do Ouvido
Rádio+Idéias