Montagem sobre colagem de Nélli Menezes
Morro do Querosene - São Paulo 2000

Catirina do Bumba-meu-Boi, Catarina na dicção popular, é sinônimo da Voz Pura da maternidade brasileira. Às vezes, retratada na imagem de negra; outras, filha da mestiçagem, cabocla-mameluca-cafuza... mescla de tradições e, por nosso interesse, dos fios sonoros na poética popular, nas canções que vêm do berço. Nanarissas, dorme-nenês, acalantos ou simplesmente cantigas de ninar, são os nomes dos recortes sonoros do carinho presente em todo mundo: a lullaby inglesa, berceuse francesa, kelebka polonesa, canción de cuna de origem espanhola, wiegenlied alemã. Tramam todas, na suavidade da noite, a malha vocal que expressa a monotonia das horas insones.

        No Brasil, em particular, deve-se a divulgação do canto-lento à mãe africana, ora embalando com carinho, ora invocando seres mágicos, para o conforto e o terror de suas crianças e dos filhos da casa-grande. Ao lado do boizinho da cara-preta, encontram-se a cuca e o papão, de origem portuguesa, também o pavão, além dos tutus de África: Tutu Zambê, Tutu Marambá ou Tutu Marambaia. Esse bicho assombrador possui dupla identidade na matriz de nossos costumes e de nossa misturança étnica e lingüística: ao Marambá, dos povos indígenas, somou-se o Tutu que vem da palavra quitutu, de origem quibunda de Angola; o termo marã, como se sabe em tupi-guarani, significa coisa ruim, velhaco ou espírito mau. Segundo Mário de ANDRADE:
Os tutus, que variam conforme a região, são animais informes e negros mencionados em acalantos. Não existe uma descrição detalhada do mesmo, mas é com ele que se amedronta a criança que não quer dormir. Além do tutu-marambá, ou marambaia, há ainda o tutu-zambê, ou tutu-do-mato, ou bicho-do-mato, que figuram em cantigas populares:
Tutu-zambê, Vem papá sinhazinha!
Tutu, vá-se embora,
Sinhazinha está dormindo!

        A legião de bichos tutus cresce com o jacaré-tutu ou jacaré-mandu como aparece na cantiga Murucututu. Murucututu é também o nome de uma pequena coruja que ronda as canções indígenas, considerada a mãe do sono dos pequenos curumins... mas, neste dorme-nenê, como em muitos outros, parece dominar a voz da negra no estatuto de eterna narradora, invocando assombrações. A Sinhá Velha parece figurar como a própria Mãe Joana, negra em rugas para assustar o pequeno ouvinte; 'murundu' soa-nos uma dicção alterada de 'mulungu', árvore, região de possíveis sombras e esconderijo dos bichos tutus.

        Uma das poucas canções que conserva boas palavras de um longínquo dialeto afro, fracamente influenciado pelo português, é Nigueninhas, conforme registra o Guia Prático, de Villa-Lobos:

Nigue, nigue, ninhas, tão bonitinhas,
macamba viola di pari e ganguinhas
ê ê ê ê, imbê, tumbelá!
Mussangalá, quiná quinê...

        Por sua vez, a mãe portuguesa faz comparecer nas horas de vigília, a preocupação com os afazeres de seu dia-a-dia, os cuidados com a roupa do pequeno, os santos e os anjos da tradição católica. A imagem de Nossa Senhora ninando o Menino Cristo cintila em nanarissas como Meias de fio de luz ou Nossa Senhora faz meias, Estando a Virgem e sua correspondente nordestina Estava Maria, ao lado da Canção do berço, reconstituem a cena do Presépio... Também fazendo as vezes da Mãe, a avó do menino Cristo comparece, em visita ao Neto e aos acalantos, a Senhora Sant'Ana.

        Igualmente, anjos fazem a ronda no berço, ajudando a baixar o sono nos olhos da criança. Embora peça em canto e reza, a mãe nunca parece alcançar o descanso almejado. No Acalanto, segue alta a madrugada friorenta; a canção de Dona Sancha, dona Sanja, também comum nas rodas diurnas, não seria outra senão um anjo feminino, dona anja, representando a aurora ou madrugada, voando entre as faces da lua e do sol...

        De origem portuguesa, são as nanarissas que fazem menção ao dinheiro. Obviamente, a idéia de mercadejar não pertence às culturas tribais, quer indígena, quer africana, e comprar os artigos de cozinha, ou quaisquer outros, não estava na possibilidade das amas escravas.

        Em Minha mãe mandou-me à fonte e Minha mãe mandou-me à venda, a Voz do canta-conto pertence, provavelmente, a uma irmã maior ou ama: a tradicional Tatá, que relatam medos e encontros. Em Sussussu, é também uma criada quem comenta a saída da patroa.

        Sussussu, pedido sussurrado de silêncio... é na cantiga de ninar indianizada, que os sons da madrugada se confundem com o choro do curumim, entre a cantoria de galos e sapos, o rugido das onças no roçado, barulho de muitos bichos no mato, o vento uivando... o primeiro registro foi tomado por A. Leça; Papai Curumiaçu é pertence do folclore caboclo do Pará; das muitas variantes do Sapo Cururu ou Sapo Jururu, sempre fazendo alusão à serenata e ao casamento da sapaiada, apresentamos duas versões que dialogam.

        Por fim, nos laços sonoros e afetivos da nina-manha de Catirina, onde resgatamos sempre a mãe e a filha, bonecas de porcelana portuguesa, afro pano e barro indígena, encontra-se o Boi. Bordado em pontos à brasileira, sabemos mocho, cara preta, vindo do Piauí, Boi no curral...


Peter O'Sagae
Roteirista, autor de programas de Rádio
e pesquisador das Tradições Orais




SAGAE, Peter O'.  "Canta, Catirina!"  No balanço do balaio: pontos de poesia: Brasil, Portugal
     e África.
 Monografia.  São Paulo: Faculdade de Letras, Universidade de São Paulo, 1997.
    pp. 73-7.