© LUÍS CAMARGO
No poema "Atelier", Oswald de Andrade (São Paulo SP, 1890-1954) refere-se à pintura como silêncio emoldurado. Do outro lado do Atlântico, em Portugal, Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935) já tinha usado metáfora semelhante: silêncio expressivo. Confira: "Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo." No séc. XVIII, Raphael Bluteau (1638-1734) definia pintura como "arte liberal, imitadora das proporções da natureza, & não só muda representação, mas escritura, ou expressão, que fala, & com as cores, & o pincel faz falar muitas coisas naturalmente mudas. Tanto assim, que o mais antigo, & natural modo de escrever, foi pintar os objetos, ou matérias, em que se queria falar, donde veio a palavra, Pingere, & a composição dos jeróglifos [o mesmo que hieróglifos], que representados significavam o que se queria dizer." Mas, afinal, o que é que a pintura fala? Ela pode representar um ser do mundo visível, por exemplo, uma flor. Pode descrever um ser específico, por exemplo, uma hortência. A pintura pode situar esse ser no tempo, ou seja, narrar: uma flor que se abre, uma flor que murcha. Ou pode representar um ser invisível (uma idéia, um conceito), ou seja, simbolizar: por exemplo, um ramalhete ou um vaso de amores-perfeitos pode simbolizar o amor... ...perfeito! A pintura pode expressar sentimentos e valores pessoais, sociais e culturais. Pode chamar a atenção para a sua própria configuração plástica; estimular a participação, servir como brinquedo ou jogo. E pode se auto-referenciar, falar sobre si mesma, referir-se à linguagem pictórica ou aos meios de produção artística, como as representações do pintor e seu modelo. Ou seja, a pintura pode ter várias funções, entre elas: representativa, descritiva, narrativa, simbólica, expressiva, estética, lúdica e metalingüística. ![]() Em Maçãs e uvas, por exemplo, Pedro Alexandrino (São Paulo SP, 1864-1942) descreve objetos sobre uma mesa: flores, frutas, vidro, metais, louça e tecido. Descreve? Sim, descreve, por que não? Já no séc. XVIII, Raphael Bluteau definia descrição como "definição imperfeita. Representação, ou pintura de alguma coisa com palavras." E, simetricamente, pintar com palavras é definido como "fazer a descrição de alguém, ou de alguma coisa". Em Maçãs e uvas, a descrição valoriza o contorno, a forma e o volume dos objetos - valores plásticos. Os valores visuais como brilho, reflexos e sombras também enfatizam a forma e o material de que os objetos são feitos. Os objetos parecem dispostos de maneira casual. No entanto, percebe-se uma composição triangular, a alternância de luz e sombra na metade inferior da tela e o grande foco de claridade na toalha, no canto inferior direito, que chama a atenção para o reflexo na jarra, que reproduz parte da composição sob um outro ponto de vista. À descrição associam-se duas funções: a função estética, que cativa o olhar do espectador para a beleza e o equilíbrio, e a função lúdica, no reflexo na jarra de metal, que parece propor uma adivinha visual: de onde é este reflexo? Maçãs e uvas expressa valores de simplicidade e naturalidade (os grãos de uva e as maçãs fora da bandeja), mas que não disfarçam o refinamento estético: rosas vermelhas, bandeja de metal (prata?) trabalhado, louça pintada (à mão?), toalha bordada. Há também uma discreta fartura que permite que maçãs e uvas possam ser apreciadas também como objetos estéticos, objetos de contemplação: a representação de objetos e frutas sobre uma mesa, sem ter nada de propaganda eleitoral, e sem ter nada de panfletário, veicula, mesmo assim, valores sociais e culturais: o discreto charme da burguesia. Assim, a muda representação (ou escritura com cores) de Maçãs e uvas integra as funções descritiva, expressiva, estética e lúdica: um silêncio bastante expressivo, para falar como Fernando Pessoa.
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