Comunicação apresentada, durante o XV
Bienal do Livro de São Paulo: Seminário Nacional de Literatura Infantil e Juvenil (CBL, mai.1998) -
mesa-redonda: «A Leitura como Processo Integrador» |
O Silêncio Visual do Rádio Peter O'Sagae
I - Prólogo ...", (já faz alguns anos que) modelei a expressão Palavra Elétrica, (inspirado pelos ensinamentos de Zumthor), na busca de um rótulo diferencial para meu trabalho com textos literários e música através do Rádio. E aqui (em sete notas) estaremos restritos a pensar esse Rádio, não como um mero veículo de comunicação de massas, idéia defendida pelos pensadores da Escola (de Frankfurt), nem como o tambor tribal (do método funcionalista) de McLuhan, a mídia capaz de reagrupar (os Homens) em uma aldeia global. Mas antes, devemos perseguir (um Rádio que se deseja Arte): manifestação grávida de sentidos, feito artesanato, tapeçaria rara ou boneco de barro, (um presente sonoro) que se dá a alguém à espera de atenção. Com esse Rádio, articulo minha linguagem. Cada novo projeto de programação representa um desafio e uma conquista, alcançando o Outro na troca de mensagens com os ouvintes. Com sorte, essa é a utopia (do Diálogo) em que me proponho, a abertura de um canal inteiramente intersubjetivo, pois necessito dessa relação particularíssima: não quero estar sozinho (neste Discurso). II - Sonhamundo Às vezes, eu mesmo me pergunto quando começou esse sonho, ou delírio sonoro, (esse mundo) traduzido através do Rádio. A produção de Sonhamundo (Rádio USP FM 93,7 MHz) data de 1996. Mas acredito que muito antes uma idéia assim já andava comigo. O título da série veio-me nas imagens guardadas desde a infância: eu sonhava (com Deus) e Deus sonhava com o mundo... e era grande o meu fascínio... mas, se tudo era sonho e alguém acordasse, o que poderia acontecer? (Até hoje, não sei...)
III - O Ouvido que Vê Entre o sonho (com o mundo) e os mundos que o Rádio possibilita criar, há a inequívoca qualidade da introspecção, da busca pessoal e coletiva, de uma abertura para (a Paisagem Mental), sempre múltipla e imprevisível:
A experiência auditivo-visual também é assinalada por muitas pessoas capazes de ver imagens (ao ouvir música), em especial a música clássica. Até mesmo Kandinsky, construtor de muitas imagens com seus pincéis, estabelecia e preconizava (em 1911) graus de atratibilidade entre as artes plásticas e a música (para ele, "arte puramente espiritual"). Em suas recordações, descrevia os efeitos de Lohengrin, obra de Richard Wagner, sobre sua sensibilidade: momento especial quando o grande artista via uma imensa paleta de cores (através dos acordes -- imagens) que se apresentavam a seus olhos. Essa transformação de nossos ouvidos em uma espécie de Terceiro Olho é influenciada por toda e qualquer fonte sonora. Muitos jargões radiofônicos buscam exatamente definir essa vivência particular, como ("o Rádio provoca a Imaginação nas pessoas") e ("o Rádio faz de seu ouvinte um ser pensante"). Decorre a expressão "magia: verbo & música" repetindo esse mesmo conceito em nossos programas. (Além da música), as palavras. E Kandinsky sintetiza:
Ou como, em diversas vezes, trabalhando juntos, Regina Porto brincou: Toda palavra contém um som. E eu remendaria: a Palavra Elétrica, soando em Rádio, é comunicação do instante, ícone por excelência, afinal, (A consciência não é um processo verbal) Criam-se verdadeiras simpatias, entre o Rádio e o público ouvinte: aquilo que conhecemos interiormente como "realidade" parece entrar em transformação profusa, perde seus contornos habituais, eleva-se... Ou, (posto por Octavio Paz): O diálogo não é mais do que uma das formas, IV - Invisibilidade O Rádio consolida-se como meio de criar o Diálogo (e a Ilusão). Sua imanente carência de imagens (visíveis ao olho exterior) empresta-lhe uma característica excepcional, livre dos excessos comum às outras mídias. Contrários a essa opinião, alguns teóricos não mediram esforços para apontar sua peculiaridade como uma deficiência expressiva, inventando-lhe (rótulos) nada amigáveis, como "veículo cego". No entanto, envolvida nesse manto (de invisibilidade), a mensagem transmitida pelo Rádio revela a possibilidade de ser sempre atualizada (pela imaginação do ouvinte) -- o verdadeiro (ouvir) e (interpretar). Klaus Schöning, ao escrever Ouvindo peças radiofônicas: em defesa de uma criança abandonada, explica que
Há esse envolvimento sensorial, pois "A audição, à diferença do olho frio e neutro, é hiperestética, sutil e todo-inclusiva" (McLuhan 1969: 105). (In)felizmente, poucos são os aventureiros pre(ocupados) com a visão de imagens interiores, pois "enxergá-las" implica em um desconfortável exercício de introspecção, uma vez que "O homem é sempre atraído, e hoje mais do que nunca, pelas coisas exteriores, não reconhecendo de bom grado a necessidade interior" (Kandinsky 1996: 51).
V - Imagens A partir da raiz indo-germânica "magh" originam-se (diversas palavras como) máquina, maquiagem, magia e imaginação, cujo denominador comum é a idéia de "libertar-se, emancipar-se de" (Koellreutter 1991). E podemos arriscar outra via, nossos pensamentos imantandos por idéias (extra)Vagantes: O que significa imagem? Fruto da imaginação com propriedades mágicas? Uma resposta pode estar escondida nos (ritos primitivos), tempo e espaço de fusão com o Uni(verso), onde e quando a palavra mágica era entoada como alimento da alma, com poderes litúrgicos da fé e da cura. Através dos antigos (mitos), buscamos a imagem da cosmogonia, os mistérios de nossa origem. A palavra sagrada (e, portanto, poética) é construção de sentidos e segredos, revelação do desconhecido e manutenção da (Ordem) sobre o (Caos). A imagem era máquina, tecnologia do pensamento humano, deflagrando um novo modo de perceber (e sentir) a "realidade". A palavra era a própria imagem (enquanto símbolo, representação do divino, aquilo que não se vê com os olhos do exterior) e essa imagem (não mais que um simulacro) era o artifício e o artesanato, enfim, (a Arte) e sua técnica. Talvez, por isso, possamos falar nas imagens poéticas, como verdadeiros mecanismos da "realidade", (maghismos) que nos transmitem uma qualidade do (Admirável) "mundo novo" que se descortina à nossa sensibilidade. A um só tempo, tão humanas, essas imagens poéticas nos colocam à face da divindade (o diálogo cósmico, de que nos fala Octavio Paz).
VI - Interlúdio Nossa am(i)ga semiot(i)cista, Mar(i)a Zilda da Cunha, esculpiu a definição de poesia como "(A Religião da Linguagem)", nos remetendo diretamente a esses ritos ancestrais. Sabemos ainda que o termo poesia (do grego "poiésis") significa "fazer, realizar". E o círculo de relações (reduz seu foco) e alarga o caminho para a imagem poética, como "a técnica efetiva que nos insere em um estado (sagrado) de Emancipação". VII - No Silêncio Visual Imprimindo seu discurso (como Poesia), o Rádio estabelece com a audiência um jogo de linguagem, muito próximo das antigas adivinhas. Sabemos que o desafio da Esfinge grega era (Decifra-me ou Devoro-te.)... modernamente, o Rádio parece nos dizer: (Sinta-me ou Cego-te!). O Enigma radiofônico, como todos os outros enigmas de nossa vida, gera uma dúvida e um vazio. Mas, brincando com (paradoxos e contrastes) de idéias e sonoridades (vozes, música e ruído), ele próprio fornece o material necessário para a solução, que se diferencia de ouvinte para ouvinte. Não há homogeneidade, nem pasteurização: o Rádio evidencia (o Individual). Através da motivação lúdica, surge (a imagem) formada num rápido reflexo. Em frações de segundo, o ouvinte (provocado) tende a completar o espaço (Vazio) com suas imagens interiores ou a sensação de (Escuro) com cores mais amenas. É o que chamamos também de cine-mental, a resolução visualizada, a imag(in)-ação, imagens-em ação. Enfim, o ouvinte tocado pelo Rádio, emocionado pelo discurso poético: um indivíduo simultaneamente paralisado e provocado à reação. O interesse que nos desperta (o paradoxo) é exatamente sua capacidade de colocar em cheque a validade das coisas, a existência do que (já é). Inspira-se o tempo caótico com necessidade de ser ordenado. Ou em outras palavras: faz-se necessário (fiat lux) criar luzes que dissipem a escuridão. Há uma travessia por estados primevos, onde (tudo vale um v)i(r a ser). A eternidade dessa Noite é o momento breve. É desta forma que os ouvidos (em estado de alerta) podem proporcionar a fruição mágica, que é sentimento estético, qualidade primeira para a ressonância interior, o "insight" (na percepção) do ouvinte, captando as vibrações iniciais de uma (imagem sonora), que nos fala de perto às emoções: o Rádio atingindo "o (coração) do mundo". N(um) próximo passo, a mensagem transforma-se segundo os hábitos de pensamento. Dá-se origem às Verdadeiras Imagens (mais particularizadas e intransferíveis), momento deatividade interior, de criar, comprometendo-se com sua "liberdade" e abandonando (a inércia) "eufórica". Ser (poético) é fazer. E em nosso caso, brincando-se com (o sentido) do Ouvir, o olhar (introspectivo) torna-se presença de reflexão, um "exercício de metalinguagem": linguagem e indivíduo que se dobram sobre (si), sobre a própria história do ser, e vão desdobrando pos(si)bilidades, que, além de traduzir e organizar meras idéias, estabelecem a troca com (o Outro) e o Mundo. Da comparação crítica, de natureza lógica, resulta a (sín)tese integradora do indivíduo gerando atos (conduta inaugural), engendrada como valor ético de uma mudança de rumo, de (U)topia. O (im)possível torna-se possível através de um Rádio que sonha mundos (no universo audível) articulado em linguagem. Imaginar, sonhar... não mais como atividade (ingênua) e descompromissada, mas atenciosa ao (Diá)logo, prazeiroso e prazenteiro das imagens interiores. Concluímos citando Alan McGlasan (The Savage and Beatiful Country):
Bibliografia
:: CUNHA, Maria Zilda da. Criança e Linguagem - um ensaio preliminar. Dissertação de Mestrado em Comunicação e Semiótica. São Paulo: PUC, 1997.
:: HUHTAMÄKI, Harri. The five ways of the radio: paradox-dramaturgical fractions. São Paulo: Cia. de Radiodifusão Finlandesa (YLE) / Centro Experimental de Música / Cultura FM, 1994.
:: KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. trad. Álvaro Cabral. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
:: KOELLREUTTER, H.J. O temporismo em Stravinsky e Picasso. Ciclo de cinco programas de rádio produzidos por R. Porto. São Paulo: Cultura FM, 1991.
:: MACHADO, Arlindo. Máquina e imaginário. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 1996.
:: McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. trad. Décio Pignatari. São Paulo: Cultrix, 1969.
:: NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô - uma jornada arquetípica. trad. Octavio M. Cajado. 7ª ed. São Paulo, Cultrix, 1995.
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:: PORTO, Regina. Técnicas de edição e montagem para um rádio contemporâneo. São Paulo: Ofic. Cultural Oswald de Andrade, 1990.
:: SPERBER, George B. (org.). Introdução à peça radiofônica. São Paulo: E.P.U., 1980.
:: ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a "literatura" medieval. trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
::
SAGAE, Peter O'. O silêncio visual do rádio (sete notas de quem Sonhamundo). In: SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL, XV Bienal Internacional do Livro de São Paulo, Câmara Brasileira do Livro, 1998. Anais. |